Ah, o conserto de eletrônicos…

O caminho que me trouxe ao atual pingue-pongue entre uso, consertos, apropriações e gambiarras teve certamente alguns de seus episódios mais importantes em construções coletivas como a rede MetaReciclagem e o coletivo Lixo Eletrônico, entre outras. Para provavelmente todas as pessoas envolvidas com aquelas iniciativas, representava um imenso  desperdício o comportamento quase compulsivo de quem descarta e substitui equipamentos eletrônicos ao menor sinal de malfuncionamento. Pior ainda quando os equipamentos nem chegam a falhar de verdade.

Não se trata somente do mau uso de dinheiro, quando alguém compra alguma coisa que ainda não era necessária. Na verdade, esse é o aspecto mais superficial da relação descarte e substituição. O que nos incomodava então, e me assombra, até hoje é o mais puro desperdício de duas coisas: dos recursos materiais que são necessariamente condensados em qualquer equipamento (dezenas de materiais diferentes, em sua maioria extraídos da crosta terrestre através de processos que causam impacto ambiental, exploração e guerras, além de raramente serem reversíveis), e também do conhecimento e trabalho aplicados em sua criação, projeto e fabricação. Ao jogar antecipadamente no lixo um objeto que demandou o investimento de conhecimento e de trabalho de muitas pessoas, estamos de certa forma desprezando esse conhecimento e esse trabalho.

Nada disso é novidade para quem já leu meus textos da época. Mas nesse momento em que de certa forma me reaproximo dos temas que me levaram a conhecer o software livre e os hacklabs, e posteriormente os makerspaces e afins, me parece curioso que as duas últimas semanas tenham trazido alguns lembretes importantes.

Ao contrário de quatorze anos atrás, hoje o Brasil tem uma Política de Resíduos Sólidos aprovada no Congresso. Muitas pessoas já têm consciência de que o material eletroeletrônico é potencialmente tóxico. Algumas sabem que a indústria projeta falhas intencionais em seus produtos, o que se chama vulgarmente de “obsolescência programada”. Uma ou outra – e ainda assim mais do que naquela época – decidem mudar seu comportamento de consumo com base em informações sobre como determinada marca trabalha em relação a políticas de reuso, materiais tóxicos ou suporte técnico estendido. A cultura maker chegou, prometendo potencializar aquelas pessoas que querem pôr a mão na massa, fazendo e – por favor! – consertando coisas.

Mas algumas coisas permanecem iguais, e acabam fugindo ao controle mesmo de quem presta atenção em tudo isso.
Tive duas semanas bem elétricas, no mau sentido. Aqui em casa, dois adaptadores de tomada derreteram. Podia ter acontecido antes, claro. Investigando, descobri que eram adaptadores de 10A servindo aparelhos que puxavam mais do que isso. Mas aconteceu nesta semana, a mesma em que meu telefone móvel começou a esquentar muito enquanto carregava – e descarregar, igualmente quente, em menos de três horas de uso. Foi repentino: até segunda-feira da semana passada, ele durava quase o dia inteiro, e de repente isso. Sem contar com meu bom e velho laptop, que também participou intensamente das semanas elétricas.

Comprei o computador em 2012, depois de pesquisar bastante. Era o modelo do ano anterior, mas ainda assim era um avião (e com preço melhor). Bem portátil, com a possibilidade de uma bateria auxiliar, e muito sólido. Eu ainda descobriria depois, maravilhado, que a garantia dele é válida em qualquer lugar do mundo por até cinco anos depois de sua fabricação. Ao longo dos anos, eu fiz um monte de upgrades: adicionei um caminhão de memória RAM, instalei um SSD de 32Gb para hospedar o sistema e deixar o HD mais livre, mudei o cartão wifi para um modelo AC, troquei o teclado americano por um brasileiro.

Além de tudo isso, também aproveitei a passagem de um grande amigo pelo exterior para adquirir a tão desejada bateria auxiliar. É uma bandeja que fica debaixo do laptop, dobrando a vida da bateria original. Mas nunca funcionou muito bem. Ela realmente estendia meu tempo sem uma tomada, mas em algum momento percebi que a qualquer solavanco leve – como pousar o computador sobre a mesa – o computador desligava sozinho.

Como eu usava pouco a tal bateria, acabei protelando. Mas ao perceber a chegada do fim da garantia, resolvi abrir um chamado para investigar isso. E recebi ontem o técnico, aqui em Ubatuba. Ele, conversando o tempo inteiro pelo whatsapp com colegas e superiores, resolveu trocar minha placa mãe. O procedimento foi cansativo, não somente pelas dezenas de parafusos que precisou abrir (e sobre os quais a gente já reclamava lá no início da MetaReciclagem: não é necessário gastar tanto metal, se um pouco de inteligência for aplicada). O técnico teve que repetir três vezes o procedimento, por falta de atenção a detalhes. Uma vez, deixou o flat do monitor meio solto. Na outra, um pedaço da parte externa não encaixou porque os cabos no interior estavam mal posicionados. Em momentos, cheguei a ensinar algumas coisas para ele. Eu mesmo já abri esse computador algumas dezenas de vezes, ao contrário do técnico que lida com dezenas ou centenas de equipamentos diferentes em um só mês.

Mas o chato mesmo é o resultado final. Agora a bateria externa funciona, sim. Em compensação, a webcam e o leitor de digitais desapareceram completamente do sistema. Eu até percebi isso ontem, mas o técnico me falou que só poderia “homologar” minha reclamação se eu tivesse o Windows instalado. Ou seja, preciso abrir outro chamado porque a burocracia corporativa assim o exige. Pode até ser que eles se recusem a registrar minha reclamação pelo simples fato de que não vou instalar o sistema “oficial” deles em minha tão intima máquina. Mas isso é briga futura. Um pouco triste foi perceber que minha conversa sobre software livre não empolgava em nada o técnico.

O pior destas semanas, entretanto, não foi nem isso. Entre abrir o chamado na assistência e efetivamente marcar a visita (que, diga-se, foi protelada por conta da minha agenda e não por demora da empresa), eu decidi fazer uma experiência. Extrairia o SSD interno, que por alguma viagem parecia ser um potencial causador do mau contato que resultava no desligamento repentino da máquina quando conectada à bateria externa. Rodaria o sistema que já estava instalado no HD, para testar se fazia alguma diferença. Em princípio, parecia que o problema havia sido solucionado assim, quase como mágica. Coloquei o computador na mesa, e ele nem desligou. Resolvi repetir o procedimento, com um pouco mais de força. Pouco mesmo, nada de exagero. Primeira decepção: o problema continuava lá. Segunda, e mais profunda: não houve maneira alguma de iniciar o sistema.

O HD se foi. E com ele, pelo menos 4Gb de dados que não tinham backup. Curiosamente, na noite anterior eu tinha jogado um monte de coisas numa pasta que sincroniza com um owncloud no meu servidor aqui em casa. Ainda assim, tudo que estava no Desktop, assim como todas as configurações, os scripts personalizados, as instâncias de docker e sandstorm, além de centenas de músicas, perderam-se no vazio.

Paciência, algum dinheiro, e um SSD novo para ir em frente.

Ah, e meu telefone? Não encontrei nenhuma sugestão confiável na internet. Levei o aparelho a um técnico, que sugeriu que uma troca da bateria poderia resolver. Topei, mesmo desconfiado. Depois de cinco dias esperando, o primeiro teste: não resolveu. Está novamente na mão do técnico. O telefone já ultrapassou os dezoito meses de uso, e talvez o fabricante já tenha decidido, ainda em 2014, que eu preciso trocar agora. Talvez já devesse ter trocado antes, mas um firmware alternativo deu-me alguns meses a mais.

Os lembretes dessa época, depois que meus eletrônicos enfrentaram a maré revolta? O papel central das pessoas que vão pôr a mão na massa depois que o produto é vendido e usado por algum tempo. O engenheiro/administrador que planeja a vida útil, os trabalhadores que extraem e processam matérias-primas, que montam componentes e equipamentos, que os vendem e entregam, todos são pequenos pedaços usualmente reconhecidos nas narrativas sobre o ciclo de vida da produção industrial. Mas aquela pessoa que fica depois da venda, o cara da manutenção, é um nada pós-clímax. Quase um gandula. E isso é uma pena, porque nas mãos dessas pessoas residem inúmeras, quase infinitas, possibilidades. Do técnico quase competente que resolveu um dos meus problemas mas criou outros e então escondeu-se na burocracia… ao outro cujo caráter eu ainda não posso avaliar… será que me vendeu a troca da bateria do telefone mesmo sabendo que não ia resolver, esperando que eu não reclame? E até eu como consumidor, usuário, operador avançado desses equipamentos que eventualmente tinha intimidade com o equipamento para saber mais do que o técnico “oficial”. Onde estão esses elementos no imaginário contemporâneo?

Não temos respostas para isso. Mas para pensar em como melhor fazer essas perguntas, continue acompanhando este blog. E quando possível, contribua com a campanha no Catarse que busca levantar recursos para a pesquisa que vamos fazer até o fim deste ano.

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