Pesquisa TransforMatéria – exercício de descrição

A assim chamada cultura maker vem sendo propalada como uma novidade “revolucionária”. Ao permitir que qualquer pessoa fabrique produtos para uso próprio ou de outros, teria potencial para mudar substancialmente o mundo: na relação entre produção e consumo, em uma diversidade de arranjos econômicos e logísticos, na abertura de horizontes criativos para grupos sociais anteriormente alheios a estas possibilidades, ou mesmo na busca de soluções sustentáveis para o tratamento de descartes. Esta visão, ainda que persuasiva, deve ser analisada de maneira mais aprofundada. Em especial no que diz respeito à ênfase atribuída à fabricação de novos objetos, em detrimento de outras possibilidades de transformação de matéria. É importante também refletir acerca das implicações políticas, sociais e ambientais advindas do uso de equipamentos e metodologias de design e fabricação digital.

A intenção de analisar criticamente a cultura maker surge a partir de duas impressões:

  • Inicialmente  boa parte dos makerspaces e fablabs expressavam uma proximidade com a atitude coletivista, autônoma e de faça-você-mesmo dos hacklabs e do movimento do software livre. Ao longo dos anos, entretanto, foram cada vez mais adotando um vocabulário e um conjunto de práticas muito mais próximos do empreendedorismo comercial, do design industrial e das estratégias de marketing. Aquele esforço simbólico de “consertar o mundo” com as próprias mãos e habilidades foi substituído por uma preocupação com visibilidade, planos de negócios e atração de investidores. Desta forma, uma perspectiva crítica, engajada e de busca de sustentabilidade deu lugar a tentativas de reformar o capitalismo industrial, sem fazer caso de suas muitas contradições. De fato, autores-celebridade têm falado exaustivamente sobre uma     “nova revolução industrial”, como se fosse essa a solução para os problemas do mundo. Recuso esta perspectiva. É necessário pensar em outros termos. Entendo     que um primeiro passo é deslocar o foco do make – com o peso simbólico que atribui ao “fazer”, ao “fabricar”, ao “produzir” – para o transformar, que abrange o fazer mas também abre espaço para outras ações concretas: manter, consertar e reformar, adaptar, personalizar, ressignificar.
  •     As vanguardas contemporâneas (urbanas, instruídas, majoritariamente brancas, ricas ou quase ricas) têm dedicado maior atenção aos fazeres manuais, e a cultura maker está ligada umbilicalmente a esta tendência. Entretanto, é raro que se estabeleça uma relação em pé de igualdade entre os (novos) makers e os representantes de tantos ofícios reais ligados à fabricação artesanal, aos consertos e adaptações. As tecnologias de fabricação digital poderiam, em tese, ajudar significativamente as vidas daquelas pessoas que cotidianamente – por profissão ou paixão – deitam suas mãos e ferramentas sobre bicicletas, panelas, computadores, relógios, instrumentos musicais, brinquedos, aparelhos eletrônicos, móveis, sapatos, joias, automóveis e até comida. São fazedores e fazedoras por essência, reparadores e reparadoras que não estão seguindo a última tendência urbana, mas sim em busca de soluções efetivas para problemas concretos. Assim como marceneiros, serralheiros, torneiros mecânicos, alfaiates, artesãos diversos e outros que estão usualmente apartados do circuito dos makers. Aparecem ocasionalmente como prestadores de serviços, mas via de regra subordinados, quando muito funcionais. Entendo que, pelo contrário, estes amadores e profissionais, sábios no trato com a matéria, exercitam cotidianamente uma mistura de criatividade e habilidade tática que deveria ser reconhecida, ou melhor reverenciada pelos (novos) makers.

Esta pesquisa tem por objetivo central avaliar se a transformação de matéria seria um enfoque mais adequado para a compreensão das potencialidades e implicações das tecnologias e metodologias hoje associadas às ideias de fabricação digital e cultura maker. Pretendemos realizar uma dupla aproximação. Primeiramente entre os equipamentos, ferramentas e metodologias de fabricação digital e diversos saberes representados por ofícios tradicionais de fabricação artesanal, conserto e adaptação. Em segundo lugar, entre a cultura maker e outros contextos contemporâneos que operam em um eixo de resistência ao capitalismo industrial como a economia solidária, a permacultura, a mobilidade sustentável, a agroecologia, o slow food, a arquitetura emergente, entre outros.

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