Carimbos de freio – parte 1

Logo na chegada a Nantes, comentamos com nosso anfitrião Julien Bellanger, do PiNG, que estávamos pensando em alugar bicicletas. Ele de pronto nos ofereceu duas que estavam paradas em sua casa. Uma grandona, que alguns dias depois devolvemos porque não conseguimos instalar a cadeirinha para o bebê; e uma outra, mais antiga, que pertence à sogra de Julien.

A antiga é uma Motobécane, parecida com esta. A fábrica funcionou até 1981, quando foi comprada pela Yamaha, então a bicicleta tem pelo menos trina e cinco anos, possivelmente mais. Julien a levou de van no dia em que visitei o Plateforme C pela primeira vez. Ela precisava de algum trato, então a levei a uma oficina de conserto de bicicletas ali mesmo na Ilha de Nantes.

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O bicicleteiro contou que tinha uma fila grande de serviços, que para consertar os freios (trocar sapatas e cabo) precisaria de duas semanas e cobraria 25 euros, mais as peças. Acabei comprando somente as sapatas, e decidi dar um jeito eu mesmo. Ele até me convidou a voltar no dia seguinte, que ele me passaria na frente, mas eu já tinha desistido (e por 30 euros eu poderia alugar uma bicicleta para o mês inteiro). Usei as ferramentas do fablab para trocar as sapatas. Melhorou um pouco, mas não resolveu. Eu teria que atacar também o cabo, mas isso ficaria para outra ocasião.

Ao fim daquele pequeno processo, e mais algumas vezes desde então, acabei esbarrando em um assunto que é relativamente novo para mim. Ao contrário de quase todo mundo que conheço, as bicicletas chegaram na minha vida relativamente tarde. Alguns episódios na infância me transformaram em uma daquelas crianças (e mais tarde, pior ainda, um daqueles adolescentes) que não sabem andar de bicicleta. Acabei aprendendo depois dos vinte, com a insistência e a paciência daquela mulher que se tornaria minha companheira de vida, e hoje vivendo em Ubatuba pedalo cotidianamente. Mas não tive aquela fase de experimentação e aprendizado sobre o conserto das bicicletas. Então é só agora que estou aprendendo como elas funcionam de verdade.

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De todo modo, no fim da tarde eu tinha um par de sapatas gastas de freios de bicicleta. Elas não aparentavam ser originais (ainda dava para ler a inscrição da marca “Chang Star”). Cheguei a perguntar ao Julien e ao Laurent, administrador do Plateforme C, em qual lata de lixo poderia deixá-las, mas na hora me bateu que elas poderiam ser reutilizadas, justamente dialogando com o que estamos explorando com o TransforMatéria. Comentei isso, e um deles disse: dá pra fazer um carimbo. De fato, dava – e carimbos não são novidade por aqui. Levei a ideia para Carol, que se interessou em também adicionar outra variável: incorporar alguma coisa que encontrássemos na rua (como os tesouros que estamos sempre procurando com as crianças).

Na semana seguinte, aproveitaríamos os dias de oficina aberta no Breil e no fablab para pôr mãos à obra. A caminho do Breil na terça-feira, encontramos uma pinha. Carol usou a oficina para fazer nela um furo em que coubesse o parafuso da sapata, para transformá-la em um pegador para o carimbo. Com o calor da broca, conseguimos sentir o cheiro da seiva do pinheiro.

Já no fablab, ela limou a parte de borracha para deixá-la alinhada e podermos pensar em como usar. Ao contrário do aroma de pinheiro, agora o resultado foi um forte cheiro de borracha queimada (que nos fez lembrar do fedor de freios na serra de Ubatuba da rodovia Osvaldo Cruz).

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Pedimos ajuda à Maelle, que coordena as atividades e a mediação dentro do fablab. Ela nos mostrou uma série de imagens sobre como fabricaram os carimbos que estão lá para as pessoas identificarem seus perfis na rede social presencial do lab. Em resumo, trata-se simplesmente de cortar moldes na mini CNC ou na cortadora laser; fazer uma barreira com plastilina; preencher os moldes com um material semelhante ao silicone que se usa em vedação para banheiros; e recortar os carimbos. A cortadora laser utiliza um plugin do inkscape (info aqui), que já instalei.

Na próxima visita ao fablab, já vamos levar algumas ideias de arte para os carimbos. Vamos continuar contando por aqui sobre isso.

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