Escrevendo…

Um pedaço solto:

Para contrabalançar a iminente captura e assimilação do potencial transformador das práticas exercidas nos espaços de cultura maker, pode-se apontar para o fato de que as mesmas tecnologias e práticas têm grande potencial não somente para a fabricação de novos objetos, mas também para os consertos e reparos (THE RESTART PROJECT, [s.d.])⁠. De fato, em alguns contextos pode-se ver uma aproximação entre a cultura maker, o reuso de objetos e sua ressignificação1. Mas é importante atentar para duas questões. A primeira é que as práticas deste universo que recebem atenção da mídia e da opinião pública de forma generalizada são aquelas ligadas essencialmente à inovação e ao empreendedorismo industrial em grande escala. A segunda é que mesmo quando os consertos são mencionados, ainda assim pouca referência se faz aos profissionais já estão em atuação na sociedade. De certo modo, novas práticas de conserto de objetos estão sendo experimentadas, mas em troca ignoram-se as gerações anteriores. Steven Jackson recorda que trabalhar com objetos descartados ou defeituosos é uma atividade ancestral, que sempre fez parte da história das tecnologias (JACKSON, 2014)⁠. De que forma os novos “consertadores” não estariam desta forma descartando um vasto universo de conhecimentos práticos e habilidades tão antigos quanto a humanidade?

Esta exclusão tem obviamente um paralelo na fabricação digital. Quando os novos makers promovem a ideia de uma fabricação distribuída respondendo a problemas locais como uma novidade revolucionária, não estariam também eles deixando de contemplar aqueles ofícios que fizeram isso por muito tempo? De fato, antes da ascensão da indústria de massa no século XX, os objetos utilizados por boa parte da população eram produzidos em pequenas indústrias e oficinas artesanais. À medida em que a indústria passou a oferecer alternativas mais acessíveis em decorrência da produção em escala, do uso de novos materiais e outros fatores, grande parte destes ofícios desapareceu. Alguns deles permanecem, como é o caso dos artigos de luxo, das peças decorativas ou artísticas, ou ainda das soluções feitas sob medida. Outros também sobrevivem talvez por sua natureza híbrida entre a fabricação e o conserto, como é o caso do trabalho de sapateiros, marceneiros, serralheiros, costureiras, entre outros. Mas onde estão estes profissionais e suas habilidades nos mapas desta “nova cultura maker”?

1N. do A.: Eu tive a oportunidade de passar algumas semanas como pesquisador convidado na cidade de Nantes, na França, onde um conjunto de iniciativas que trabalham com a recuperação e o conserto de objetos descartados por cidadãos e organizações vêm se organizando. Existem na cidade espaços que oferecem tais materiais para artistas, hobistas e famílias de baixa renda. Os interessados podem também utilizar a infraestrutura de lugares como o FabLab Plateforme C para reutilizar os materiais, ou o Atelier Partagé du Breil para consertar e recuperar objetos com defeitos.

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