Relato TransforMatéria 1 – preparando e saindo

No fim de agosto de 2016, saímos de Ubatuba (eu, Carol e as crianças) para passar mais de dois meses fora do Brasil. Algumas articulações estratégicas, aliadas a felizes sincronicidades, nos possibilitaram concatenar eventos, projetos e outras atividades. Este texto é a introdução para uma série de posts nos quais pretendo contar um pouco do que fizemos por lá, e refletir sobre o que aprendemos.

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A primeira parada seria Barcelona, onde eu participaria, junto com colegas do projeto Ciência Aberta Ubatuba, da conferência internacional de Estudos de Ciência e Tecnologia (STS, na sigla em inglês – o site da conferência parece estar desativado), organizada pela EASST e 4S. Henrique Parra apresentaria por lá um paper sobre o projeto em Ubatuba [1]. Depois, eu seria pesquisador residente no PiNG, em Nantes (França), por quase um mês. Trabalharia em particular com o projeto (s)lowtech junto ao fablab Plateforme C e ao Atelier Partagé (oficina compartilhada) que o PiNG mantém no bairro do Breil. Ainda em Nantes, participaria do festival de economia circular Ceci n’est pas un déchet [2]. Por fim, iríamos a Lüneburg, na Alemanha, onde eu seria fellow do DCRL, ligado à Universidade Leuphana, por cerca de um mês. O tema do semestre do DCRL era “Design and Repair[3]. Apesar de não haver nenhuma relação formal direta desses três contextos, nos meses que antecederam a viagem as coisas foram se encaixando de forma a surgir um eixo relativamente coerente entre eles.

Desde o primeiro semestre de 2016, eu já vinha começando a articular um esforço que tem um pouco de observação, um pouco de organização de rede, um pouco de estratégia de ação. O nome que encontrei para essa busca foi “Transformatórios”. É uma tentativa de interferir na maneira como se estruturam, identificam e atuam as iniciativas experimentais na fronteira entre, para explicar de forma superficial, cultura digital e cultura material. O nome tem alguma relação, ainda que indireta, com o Trasformatorio, encontros organizados por Federico Bonelli na Sicília já há alguns anos. E certamente tem parentesco com o Transformaking, evento realizado na Indonésia no ano retrasado, com participação de alguns colegas de rede Bricolabs como Venzha Christ e Jean-Noel Montagne.

Como já comentei em outro texto, eu acompanhei de alguma distância o surgimento de diversas iniciativas que hoje se identificam com a tal “cultura maker”. E me sinto inconfortável de perceber (e espero estar equivocado) que boa parte do discurso maker vem cada vez mais voltado ao empreendedorismo comercial, e em dar mais fôlego para uma suposta era da indústria. Minha experiência pessoal em contato com algumas pessoas envolvidas sugere que, há uma década, os horizontes eram mais amplos, férteis e conscientes. E menos entediantes. Parte do problema, acredito, está justamente na adoção de um vocabulário que fala muito em fazer/fabricação (make/fabrication) e nem tanto em adaptar, misturar, manter, consertar, ressignificar. Essa escolha acaba condicionando o imaginário, apontando caminhos que se reduzem e se repetem. Daí a proposta de equilibrar de outra forma todos estes modos de ação (do fazer, do manter, do desfazer), e colocar no centro a ideia de transformação de matéria, que me parece ser um elemento comum a todos.

Essa perspectiva está certamente ligada ao caminho que me trouxe até o momento atual: muitos anos trabalhando com projetos de reutilização de tecnologias, inclusão digital, cultura digital experimental, licenças abertas, laboratórios cidadãos. Mas também reflete as conversas que venho tendo mais recentemente com a Carol, que é designer, joalheira e artesã. Talvez pela primeira vez desde que nos conhecemos, nestes últimos anos nossos assuntos de trabalho têm se cruzado. De um lado a vontade de promover uma apropriação crítica das relativamente novas tecnologias de fabricação digital; de outro a busca de uma valorização das muitas camadas de saberes e fazeres ligados à produção artesanal e em pequena escala. E ainda posso acrescentar uma terceira vertente aí, que é a preocupação com a natureza, impacto ambiental, descarte de resíduos e modelos alternativos de desenvolvimento futuro para nossa linda cidade de Ubatuba.

Nessa confluência de assuntos e interesses, e já vendo a possibilidade de fazer essa temporada na Europa, decidimos construir o projeto TransforMatéria. Seria uma maneira de aproveitar as diferentes partes da viagem para começar a vislumbrar o desenvolvimento futuro de uma rede de transformatórios em Ubatuba. Estávamos interessados, como publiquei repetidas vezes antes de partirmos, na aproximação entre a cultura maker digitalizada dos labs; os consertos e adaptações; e o artesanato e produção em pequena escala. Em algum momento da pesquisa, comecei a incluir também uma quarta vertente, que engloba desde a produção agroecológica até a permacultura e outros tipos de atividades que também atuam nesse eixo de transformação de matéria, mas com um enfoque mais explicitamente voltado à sustentabilidade, ao comércio justo e à vida saudável e em harmonia com o planeta.

Como falei acima, tivemos a felicidade de conseguir articular diversos apoios e parcerias que possibilitaram esse período muito marcante em nossas vidas. Além dos já citados apoios do Liinc, PiNG e DCRL (alguns dos quais foram confirmados já no meio do caminho), decidimos fazer também uma experiência de arrecadação coletiva. Tive que trabalhar um pouco para começar a vencer a dificuldade de dialogar com uma câmera (e ainda não consegui superá-la totalmente), e montamos uma campanha de crowdfunding no Catarse. Não tive tempo de me dedicar muito à campanha, e isso foi uma das lições que aprendi: dá trabalho pedir dinheiro. Adaptar a linguagem, insistir, pedir ajuda de compartilhamentos, decidir recompensas e tudo mais. A outra lição é uma ainda não digerida: além de dar trabalho, é muito incômodo pedir dinheiro. Para desconhecidos, porque é difícil explicar a importância do projeto. Para conhecidos, porque existe na nossa cultura um constrangimento em se admitir que não temos tudo resolvido, e precisamos sim de contribuições.

No fim, a campanha deu resultados muito abaixo do que havíamos projetado. Isso não inviabilizou a viagem, justamente porque conseguimos encontrar outros caminhos – não somente com as instituições que garantiram o principal, mas também parentes queridos e amigos – que contribuíram diretamente com o projeto. Mas o que arrecadamos com o crowdfunding ainda possibilitou uma nova etapa que não estava planejada: ao fim do período em Nantes, conseguimos cruzar a França para visitar um amigo. Ele trabalha como carpinteiro em Guédelon, o castelo que está sendo construído hoje com técnicas medievais. Como não poderia deixar de ser, foi mais uma etapa que também se encaixava em nossa intenção de explorar caminhos ligados à transformação da matéria.

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No geral, a viagem foi extremamente fértil. Em ideias, experiências, novas questões. Naturalmente, tivemos desafios, ainda mais em família. A adaptação a diferentes rotinas, idiomas, cultura e dinâmicas sociais, compras e alimentação, transporte e espacialidade, é sempre empolgante mas exige flexibilidade. Mas foi uma experiência única, certamente enriquecedora para cada um de nós quatro. Hoje nos conhecemos melhor, individualmente e em grupo. Esperamos ter a oportunidade de fazer outras dessas.

O próximo post será sobre a conferência de STS em Barcelona. Aguarde…


Notas

[1] Minha ida a Barcelona foi possível com o apoio de Luca e Sarita, coordenadoras do Liinc, com recursos do CNPq.

[2] O deslocamento a Nantes e nossa hospedagem por lá tiveram o apoio da Associação PiNG.

[3] A ida à Alemanha e a hospedagem em Lüneburg tiveram o generoso apoio do DCRL / Universidade Leuphana.

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