Curso TransforMatéria: dia 1

Estou passando uns dias em Santos, a convite do Instituto Procomum e Lab Santista, ministrando um curso chamado Transformatéria: cultura maker na cidade.

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O curso acontece no Dínamo, laboratório de inovação da Unimonte, e surgiu a partir da pesquisa que venho documentando neste blog desde o ano passado. A questão sobre a qual estou me debruçando atualmente é como fazer a ponte entre, de um lado, as inúmeras possibilidades que surgem a partir do uso de tecnologias mais acessíveis que permitem o que venho chamando de “transformação de matéria” (que abrange a fabricação digital e também outras atividades concretas) e de metodologias ágeis de criação e experimentação, e de outro lado a capacidade já instalada de espaços que trabalham com a transformação de matéria em qualquer cidade – artesãos, consertadores, separadores de materiais. Aproveito uma folga neste sábado de manhã para documentar o roteiro que construi para esta ocasião.

Na primeira manhã do curso, pedi que cada participante se apresentasse respondendo a três perguntas: como se chama, como se apresenta, e que tipo de coisas sabe fazer. Enfatizei que estava falando sobre “fazer” da maneira mais concreta possível: com as mãos, ferramentas ou equipamentos. Havia uma boa mistura de pessoas com diversas habilidades: da fabricação de quilhas de madeira para pranchas de surfe, passando pela criação e manufatura de brinquedos educativos, até artesanatos em geral, fabricação digital, design e arquitetura sustentável. Depois, foi minha vez de contar de onde eu vim. Foquei particularmente no período entre a criação da MetaReciclagem em 2002, passando pela Cultura Digital no Minc e os coletivos Lixo Eletrônico e Desvio, por volta de 2010. Contei sobre como a gente no início achava que estava “reciclando” eletroeletrônicos, ajudando a resolver as poucas partes soltas de um sistema que no geral funcionava bem, criando a base material para a tal economia não poluente que as tecnologias de informação possibilitavam. E como fomos percebendo a complexidade do cenário internacional que envolve a produção, o uso e o descarte desses materiais. Para isso, mostrei trechos de três vídeos que explicitam a situação.

Depois disso, passei algum tempo contando sobre a primeira impressão que tive ao conhecer o universo dos hacklabs e das experiências de fabricação digital por volta de 2008 – tecnologias que poderiam reduzir o impacto da produção industrial e sua distribuição pelo globo. E sobre minha decepção quando aquele universo amplo de potencialidades foi se reduzindo à tentativa de fornecer saídas para a renovação do capitalismo industrial internacional. Na minha opinião, essa virada fica bem marcada a partir da publicação do livro do Chris Anderson.

A tarde do primeiro dia começou com Caio de Marco apresentando os equipamentos disponíveis no Dínamo: duas impressoras 3D e uma CNC laser. Pedi para os participantes prestarem atenção ao funcionamento concreto das máquinas: não somente a operação do sistema e seus resultados, mas também tentar decompor quais são as operações físicas que as máquinas desenvolvem. Caio mostrou a preparação dos arquivos e colocou as máquinas para funcionar com pequenos exemplos de teste.

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Depois voltamos a conversar, tentando sempre tensionar a respeito das possibilidades de uso daquelas máquinas também para o conserto, o reuso e a adaptação de materiais disponíveis, e não somente para a fabricação de coisas novas. Contei sobre exemplos como o Free Universal Construction Kit, que a Gisela Domschke trouxe ao Brasil na mostra Radical Fictions de 2013, e também sobre a estética da gambiologia, presente nas mostras Gambiólogos e na revista Facta, ambas organizadas pelo Fred Paulino. Falei também sobre a desobediência tecnológica de Ernesto Oroza em Cuba.

Nesse momento, tentei chamar a atenção especialmente para a sensibilidade particular da gambiarra, do reuso, do que na época da MetaReciclagem alguns de nós brincávamos chamando de “projeto rainha da sucata”: o mundo é repleto de coisas que podem ser transformadas, e nesse processo tornam-se úteis ou adquirem valor. Pôr as mãos para funcionar pode ser um processo profundo de descoberta e de experimentação criativa.

Por fim, pedi aos participantes que no dia seguinte trouxessem coisas que achavam que poderiam ser utilizadas com auxílio das máquinas do Dínamo. Faríamos também uma saída a campo, em princípio procurando por ferros-velhos no entorno da Universidade. Contarei sobre o segundo dia em outro post.

 

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