Curso TransforMatéria: dia 2, manhã

Este é o relato da manhã do segundo dia do curso TransforMatéria, em que falei sobre como voltei a me interessar sobre temas ligados ao reuso de objetos a partir de 2014, e de que forma isso resultou na ideia de Transformatórios e no projeto TransforMatéria. Como passei por episódios recentes que ainda não estão devidamente documentados, esse post se alonga em alguns assuntos e em alguns momentos perde o foco no registro da oficina. Mas decidi manter assim mesmo, como anotação. Nas próximas semanas, ainda retornarei a esse período com relatos mais detalhados. E no próximo post, vou contar sobre o que fizemos à tarde neste mesmo dia.

Começamos o dia estreitando um pouco o foco da conversa. Na véspera, havíamos nos apresentado individualmente, conhecido as máquinas do Dínamo e conversado sobre gambiarra e reuso. Agora era a vez de prestar mais atenção à matéria e às coisas. Em particular, queria pensar sobre o ciclo de vida dos objetos, desde a produção até virarem lixo. Para isso, comecei exibindo o sempre útil documentário Ilha das Flores, do meu conterrâneo Jorge Furtado:

Para minha surpresa, muitos participantes não o conheciam. Foi o mesmo vídeo que eu usei no início de meu período em residência no Catar, em 2014, e esse era o assunto seguinte do curso em Santos. As duas semanas que passei em Doha, trabalhando com estudantes do mestrado em design da VCUQ, forneceram a grande motivação para meu retorno a assuntos ligados a descarte e reaproveitamento.

Entre 2012 e 2014, eu havia me afastado do dia a dia da rede MetaReciclagem, enquanto me dedicava mais a estudar laboratórios experimentais durante o mestrado na Unicamp. Mas o convite da VCUQ acabaria por trazer de volta ao foco aqueles assuntos. Não somente pelo próprio tema da residência (fui convidado para trabalhar o tema da gambiarra como prática criativa), mas de forma mais marcante pela percepção de que uma série de dinâmicas negativas que podiam ser vistas no Brasil – alienação, consumismo, indivualismo, pouca preocupação com a origem e o destino das coisas que utilizamos cotidianamente – se expressavam de forma muito mais absoluta e explícita no Catar. Fiquei surpreso ao descobrir que, entre dez estudantes de mestrado, quase todxs oriundos de graduações em design, arquitetura e comunicação, praticamente ninguém sabia responder a uma simples pergunta: para onde vai o lixo que vocês jogam na lixeira? Pior ainda, muitxs ali nunca se haviam feito tal questão.

Nas semanas seguintes, conversamos bastante, conhecemos artesãos e consertadores de coisas, visitamos um cemitério de pneus e tentamos entrar em um depósito de carros quebrados, ambos no meio do deserto. Por fim, organizamos dentro da universidade um laboratório de consertos inspirado nos repair cafes, o Salleh Lab.

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Alguns meses depois de voltar de Doha, eu publiquei um texto em inglês com o título “Gambiarra: repair culture“. Foi a primeira forma que tomou a crítica que eu estava formando à época a respeito dos rumos que a tal cultura maker havia tomado. Eu contava justamente sobre a diferença que via entre as iniciativas de resistência e inclusão promovidas pelos hacklabs do sul e periferias da Europa, e essa nova cultura maker se disseminando pelos hackerspaces e makerspaces a partir dos EUA desde 2008. Em vez de uma postura crítica e da busca de arranjos mais sustentáveis, o que se vê frequentemente é a repetição de experiências (a famigerada impressão 3D da cabeça do mestre Yoda) e uma grande permeabilidade ao empreendedorismo meramente comercial, ao capital especulativo e mesmo a um uso irresponsável de milhares de máquinas no mundo inteiro que derretem plástico e geram mais lixo.

Foi em busca de construir alternativas para os rumos tomados pela cultura maker que no início de 2016 eu concebi a ideia de transformatório. Em um nível superficial, o transformatório seria bem similar a um fablab ou makerspace, mas suas atividades estariam voltadas não ao “fazer” ou à “fabricação”, e sim à transformação de matéria. Isso envolveria, naturalmente, a transformação de matérias-primas em objetos novos. Mas colocaria também no mesmo nível de relevância as customizações, adaptações, consertos e ressignificações de objetos já existentes. Ainda no ano passado, fizemos um pequeno encontro de pessoas interessadas nos transformatórios durante o Labirinto, também organizado pelo Instituto Procomum em Santos. Depois, criamos um grupo de emails.

transformateria-logo

Antes de começar a construir transformatórios, entretanto, me pareceu importante pesquisar como poderia se dar essa inversão de ênfase. Foi conversando com minha esposa, que é joalheira, que tive a ideia de começar com outro projeto, que chamaria de TransforMatéria. A ideia era, inicialmente, aproximar três campos: a cultura digital interessada em equipamentos e técnicas de transformação e fabricação; os campos ligados ao conserto de qualquer tipo de equipamento ou produto; e por fim as artes e ofícios tradicionais como marcenaria, serralheria, tornearia, e também o trabalho de sapateiros, costureiras, alfaiates, entre muitos outros. A base era entender que, ao contrário do que afirmava a retórica das celebridades do mundo das tecnologias em suas bem-pagas palestras, trabalhar manipulando objetos não é uma novidade. Pelo contrário, isso remonta ao início de nossa formação como espécie. E precisamos urgentemente tratar dessas coisas se queremos mesmo escapar das implicações de uma economia linear, como vêm propondo as organizações que defendem a economia circular. Mostrei dois vídeos que são bastante significativos desses pontos de vista:

Foi a pesquisa de TransforMatéria como caminho para entender o que podem ser os transformatórios que nos levou a um período na Europa no ano passado. Fizemos algum esforço para alinhar as datas e possibilidades entre uma conferência em Barcelona, um período em que estaria como pesquisador residente e palestrante de um evento em Nantes, e por fim um mês como convidado de um laboratório universitário na Alemanha. Concatenamos isso tudo como um projeto único. Fizemos parcerias com diferentes organizações, uma campanha de crowdfunding sem muito sucesso e contamos com alguma ajuda de amigxs e parentes. Por fim, conseguimos organizar esse projeto em família.

O período em Barcelona foi de intenso contato com dezenas de apresentações interessantes. Relatei neste post, e ainda estou digerindo e retornando às minhas anotações de então. As etapas de Nantes e Lüneburg ainda não estão documentadas, mas faço um breve resumo abaixo a partir do que falei no curso. Nas próximas semanas pretendo publicar uma versão mais completa.

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Em Nantes, cidade que foi escolhida capital verde da Europa em 2014, eu estava a convite da Associação PiNG. Eles mantém semanalmente uma oficina aberta de consertos em sua sede (localizada, junto com outras iniciativas, em uma escola que foi desativada), e também possuem um FabLab chamado Plateforme C, na Ilha de Nantes (área dos antigos estaleiros, que foi abandonada e vem passando por um processo de revitalização urbana, com todas as contradições que isso enseja). Eu estava lá justamente para entender como se relacionam esses dois espaços, e como se articulam de forma mais ampla com o cenário das práticas sustentáveis na cidade. O final da minha residência seria uma palestra durante o festival Ceci n’est pas un déchet, que reuniria diversas iniciativas ligadas à ideia de uma economia circular.

Algumas impressões de meu período em Nantes:

  • As oficinas semanais de consertos na sede do PiNG têm a presença constante de engenheiros aposentados, o que já denota alguma diferença em relação ao público majoritário de quase todos os hacklabs e hackerspaces que conheci anteriormente – brancos, jovens, de classe média, em sua maioria homens. Ainda assim, não vi muitas mulheres por lá. Os dias abertos e de oficinas no FabLab tinham um pouco mais de equilíbrio de gênero, mas nenhum dos dois espaços parecia atrair imigrantes (exceto um espanhol casado com uma francesa, que de todo modo era europeu e branco. Além disso, percebi que apesar de explicitamente convidarem pessoas interessadas em consertar coisas, não havia nenhum profissional dessas áreas em idade de trabalho.
  • Pode-se criticar a desproporção entre prática e propaganda, mas é fato que Nantes experimenta com algumas coisas interessantes em termos de políticas públicas. Existem sistemas estruturados para o descarte, além do lixo comum (nas famosas lixeiras a vácuo) e do reciclável, também de objetos inservíveis. Isso acontece tanto em pontos nos bairros onde a vizinhança pode em determinados dias depositar móveis, roupas e outros, quanto na forma de organizações dedicadas a receber, avaliar e redistribuir coisas que ainda não precisam ir à reciclagem. Parte do financiamento dessas organizações vem da venda, a outra parte de uma fração do imposto de lixo. Uma loja social ligada a esta rede, localizada perto do Plateforme C, oferece móveis, utilidades domésticas e roupas a preços muito acessíveis, além de brinquedos por um euro e livros de graça.
  • Da mesma forma, mesmo que o barulho de “cidade sustentável” seja amplificado por mecanismos artificiais, a cidade fervilha de iniciativas interessantes. O festival reuniu dezenas de pessoas envolvidas com uma ampla variedade de projetos. Quase todas levaram oficinas ou exposições: consertos de qualquer coisa, estofamentos, papelão, esculturas feitas com objetos domésticos descartados, reuso de comida descartada por supermercados, criação de reboques para bicicletas a partir do reuso de materiais, entre muitas outras.

Fiz um vídeo durante o Ceci n’est pas un déchet, contando sobre o pessoal que estava lá e também sobre minha palestra por lá:

Na preparação para a palestra, eu estava lendo O Artífice, de Richard Sennet. Meu sogro havia recomendado o livro antes de viajarmos, e a recomendação surgiu novamente no PiNG. Sennet explora o trabalho dos mestres artesãos, desde a idade média, interessado em três eixos: as oficinas e espaços de trabalho, o desenvolvimento de habilidades, e as motivações do artesão. Reflete sobre de que forma o seu modo de trabalho pode ancorar as pessoas na realidade material, o que ajudaria a escapar de divisões artificiais desenhadas historicamente – entre prática e teoria, técnica e expressão, artesão e artista, produtor e usuário. Isso nos alienou, criando o tipo de trabalho industrial no qual o operário não sabe de onde as coisas vêm, nem para onde vão.

Foi dialogando com estas referências que entendi que o projeto TransforMatéria deveria tentar entender as possibilidades que se apresentam em três escalas complementares:

  1. O conhecimento acumulado pela humanidade ao longo da história, tanto como ciência quanto como cultura.
  2. As habilidades de transformação de matéria, que abrangem usos e gestualidades dos materiais, ferramentas e equipamentos, bem como a própria criação e produção dos mesmos.
  3. O trabalho humano em si, desenvolvido no espaço e no tempo.

Estas são as bases a mobilizar para pensar espaços maker como estruturas dedicadas à transformação de matéria, como pude entender naquele período de pesquisa na França. Mas uma questão que surgiu em conversa com Julien Bellanger, do PiNG, ainda retornaria mais tarde. Uma vez que eu apontei que não havia visto profissionais dos consertos, da produção em pequena escala ou do artesanato nos encontros semanais da oficina de consertos, Julien me perguntou: como podemos fazer para chamar estas pessoas? Eu não tinha uma resposta de pronto.

De lá, partimos para a Alemanha, onde eu passaria cerca de um mês trabalhando com o laboratório de pesquisa em cultura digital, DCRL, na Universidade Leuphana em Lüneburg. Mais uma vez, vou fazer um resumo de uma documentação mais completa que ainda virá.

Na primeira semana em Lüneburg, eu estava sozinho em um escritório bem equipado mas por demais branco e silencioso. Depois chegaram colegas com os quais eu compartilharia algumas semanas. Em algum momento, eu faria uma palestra, e no dia seguinte um workshop. Durante o tempo que fiquei lá, além da vivência na cidade, também tive a oportunidade de conhecer o FabLab localizado nas dependências da Universidade, e de visitar a empresa responsável pela coleta e tratamento do lixo comum. Também naquela cidade encontrei algumas iniciativas destinadas a promover a redistribuição de objetos que ainda não precisam ser reciclados, mas de forma muito mais tímida e regrada. A impressão que tive foi de que o material indesejado, mesmo aquele que pode ser reaproveitado, fica escondido. A sociedade local não gosta de ver coisas fora do lugar.

Consegui também evoluir um pouco mais a pesquisa, especialmente em dois aspectos. O primeiro foi uma espécie de resposta à questão inconclusa em Nantes: como trazer os ofícios tradicionais ou periféricos para dentro de um makerspace. Logo no início de meu período em Lüneburg, percebi que boa parte da motivação para minha presença por lá era a curiosidade que o departamento tinha com a história da MetaReciclagem. Foi resgatando aquele período, em particular o momento durante o intercâmbio com Waag e Sarai em 2004, que lembrei da postura que adotamos então: não iríamos criar um novo centro de mídia em localidade central numa cidade grande do Brasil, porque estávamos justamente no processo de ir em busca do Brasil profundo na implementação dos Pontos de Cultura. Nesse sentido, queríamos pensar uma metodologia de ocupação e utilização de espaços que já existiam e tinham sua própria infraestrutura, equipe, público, projetos e história.

De volta a 2016 na pesquisa TransforMatéria, talvez estivesse aí a chave: em vez de criar um novo espaço no qual aquelas pessoas versadas nas técnicas mais tradicionais de transformação da matéria se sentissem autorizadas a entrar, opinar e trabalhar, deveríamos pensar em como nos relacionar de maneira produtiva com a cidade e sua capacidade já instalada. Não convidar sapateiros para assistirem de que maneira máquinas operadas por estudantes universitários podem fazer sapatos a partir de esquemas baixados pela internet; mas ir até o sapateiro e mostrar que o trabalho dele pode ser valorizado e melhorado ao utilizar essas novas ferramentas. Isso ainda não está claro, aliás. Mas me parece uma maneira mais sustentável e includente de formular a questão. Foi também uma das motivações para a saída de campo que faríamos em Santos como parte do curso, na tarde deste segundo dia.

O outro aspecto que surgiu em Lüneburg veio em conversa com Clemens Apprich, meu anfitrião por lá. Ele havia lido coisas que eu escrevi anteriormente, e apontou em particular minha reclamação sobre a expressão “nova revolução industrial”. Sim, falar em uma nova revolução parecia mesmo equivocado, mas Clemens lembrou que o termo “indústria” tem uma origem interessante, e talvez fosse o caso de não desistir dele. Lembrei-me das instalações do FabLab Plateforme C, em Nantes, que realmente evocam algo dos galpões da época da transição das guildas de artesãos às primeiras indústrias, ao mesmo tempo em que lá se mantém uma organização coletiva e participativa em relação aos processos, o conhecimento, à postura de abertura à diferença, e à propriedade (tanto a intelectual quanto a material).

No fim da manhã, ainda aproveitei para falar rapidamente sobre a curta visita que fizemos ao Guédelon, castelo que está sendo construído na Borgonha com técnicas e processos medievais. Mostrei algumas tomadas de vídeo que fiz por lá e ainda vão aparecer futuramente neste blog. O mais interessante é que todos os materiais que compõem o castelo são produzidos ou ao menos preparados lá mesmo: blocos de pedra, madeiras, telhas e outras cerâmicas, pregos, entre outros. E como todo o trabalho depende de habilidade manual e mecanismos simples (sem eletricidade ou motores, nem mesmo a vapor), o castelo já é em si mesmo um museu vivo do trabalho de construção.

No próximo post, vou contar sobre a saída de campo que fizemos, na tarde desta sexta-feira em Santos, em busca de ferros-velhos que já não existem.

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