Curso TransforMatéria – dia 2, tarde

Na tarde da sexta-feira, a ideia era fazer uma saída a campo para encontrar espaços e situações que se relacionassem com as questões do curso. Tínhamos algumas possibilidades em vista: visitar oficinas de atividades ligadas à transformação de matéria; investigar o que é feito com material reciclável em Santos; visitar lojas de ferramentas e equipamentos; sair em busca de ferros-velhos. Estaríamos a pé, com pessoas de diferentes idades, e por isso tentaríamos não ir muito longe. Mas a região em que estávamos era bastante promissora – perto do centro, perto do porto.

Antes de sairmos, um dos participantes (Beto Versa) exibiu algumas amostras de seu próprio trabalho: quilhas artesanais de madeira para pranchas de surfe. Ele faz as quilhas com madeira reaproveitada – que ganha de amigos, encontra na cidade ou que o mar traz. E tem um design e um acabamento fantásticos, fruto de mais de trinta anos desenvolvendo, testando e aperfeiçoando o produto e as técnicas de produção.

Como o plano era, depois da saída a campo, voltarmos para o makerspace para refletir sobre qual a relação que ele pode ter com aqueles contextos, acabamos decidindo pelo caminho do ferro-velho. Na noite anterior, busquei no Google Maps e encontrei cerca de meia dúzia no entorno. Dois deles estariam a uma distância de cerca de seis quarteirões do Dínamo, então decidi sair por aquele caminho. Mas estaríamos também atentos a outros temas com potencial.

Saímos então naquela tarde de sexta-feira, em meia dúzia de pessoas, em busca de transformatórios. Topamos inicialmente com um brechó repleto de objetos usados. Especialmente o que devem ser centenas de placas e milhares de action figures. Mas também alguns equipamentos de audio e som, eletrodomésticos e outros utensílios, e muito mais. Perguntei ao dono se ele costumava consertar os objetos que chegavam com defeitos. Ele contou que na verdade ele trabalha com manutenção de máquinas de lavar e refrigeração, mas nos últimos três anos começou o brechó. Tentei encontrar algum objeto com pequenos defeitos que a gente pudesse experimentar no makerspace, mas não achei nada que me fisgasse. Ele ficou curioso especialmente quando falei sobre a impressora 3D. Começou a refletir sobre, por exemplo, refazer a cabeça de algum personagem. Pensou “para saber como refazer, eu teria que ter dois e copiar a cabeça de um”. Eu respondi que nada impedia que ele fizesse uma cabeça diferente, ou que decidisse misturar dois ou três em um só. Por fim, autorizou que eu fizesse algumas fotos, mas me pediu para não divulgar seu nome ou endereço da loja, “porque ainda não estou formalizado”.

IMG_20170331_141550789

Continuamos a jornada. Ao longo do caminho, encontrávamos materiais promissores em caçambas, containeres de lixo e no chão. Mas decidimos que só cataríamos materiais quando estivéssemos retornando ao Dínamo. O roteiro também tinha muitas oficinas mecânicas com diferentes especializações, lojas de equipamentos, materiais, autopeças, borrachas, parafusos e afins. Muita coisa a explorar, na verdade.

Em algum momento fiquei pensando em uma visualização dos fluxos de peças, materiais, objetos e equipamentos sobre o mapa de Santos. Depois ainda pensei nos fluxos de pessoas que trabalham com manutenção, consertos e pequena fabricação por ali. Será que vivem próximas? Frequentam os mesmos espaços? Os horários são comuns? O que fazem quando não estão trabalhando – estudam, ficam no bar, vão à praia? Têm algo em comum, seria possível pensar em identidade de classe de pessoas que trabalham próximas porém em espaços fragmentados? Muitas questões e camadas de informações latentes…

Viramos uma esquina, e havia outro brechó. Um senhor mais velho estava sentado ao lado de fora da loja, com os olhos vidrados nos televisores. Havia uns cinco, alguns dos quais estavam ligados. Ele praticamente não respondeu quando o cumprimentamos. Perguntei se podia ver o que ele tinha na loja, ao que assentiu sem falar nada. Mas não consegui entrar mais do que dois metros. Lá dentro, centenas de móveis e eletrodomésticos, cobertos por uma grossa camada de poeira grudada. Ele não tentou nos vender nada, e duvidei se ele consegue faturar qualquer coisa com aqueles produtos. Agradecemos e seguimos.

O primeiro endereço onde supostamente existiria um ferro-velho não tinha nada. Se não me engano, o ponto exato era uma lanchonete ou loja de autopeças. Mas o ponto no mapa não coincidia com o número da casa no endereço, então continuamos na direção do porto. Um dos participantes falou: se seguir daqui em frente, tudo vai piorando. Passamos pelo que seria o número, e andamos mais um quarteirão. Entendemos que aquele ferro-velho deve ter desaparecido, há não muito tempo. Segundo o mapa, virando na próxima à esquerda haveria outro, no segundo quarteirão.

Antes de virar, entretanto, vi um espaço que se anunciava como um projeto de reciclagem de materiais eletrônicos. Levei o pessoal até lá, bati no portão e contei ao funcionário o que estávamos pesquisando. Ele nos encaminhou ao chefe, que autorizou que andássemos por dentro do galpão repleto de eletroeletrônicos para conhecer e eventualmente pedir para levar algum material. As coisas estavam muito bem organizadas, em pilhas que chegavam à minha altura. Muitos computadores, mas também equipamentos de áudio e vídeo, e em outra parte eletrodomésticos pequenos e grandes. Voltamos para conversar com o encarregado, que estava atrasado para buscar um material no Guarujá. Eles recebem e recolhem materiais em toda a baixada santista. Ele contou que o projeto tem o patrocínio do porto, dos práticos, da CUT e outros atores locais. Mas o financiamento não é suficiente para fazer tudo o que precisam fazer. Eles têm técnicos que consertam computadores. Um ex-funcionário fez uma escultura com pedaços de materiais. Em breve devem fazer seu primeiro bazar de material selecionado entre as doações que receberam.

IMG_20170331_145244616

Insistimos na busca de um ferro-velho. Ao chegar ao segundo endereço, mais uma decepção. A casa antiga estava selada – as portas e janelas bloqueadas por paredes de alvenaria. Ficamos tentando entender se era uma consequência de transformação econômica da região, o que não parece provável já que o restante continua igual, ou se seria reflexo de alguma mudança em regras de zoneamento, pressão por formalização (e a necessidade de licenças que deve decorrer) ou algum outro elemento regulatório. Não tivemos resposta nem pistas. Quase ali em frente, chegamos a encontrar alguns carrinhos, mas não encontramos nenhum catador para perguntar. No dia anterior, uma das participantes – que já teve uma oficina de fabricação de brinquedos educacionais – disse que gostaria de conhecer um espaço perto do Mercado do qual tinha ouvido falar, que recebia e redistribuía restos de madeira. Ouviu dos locais presentes que o projeto foi desativado. É possível que Santos esteja passando por um processo contrário ao que presenciei em Nantes? Em vez de ampliar as possibilidades de reuso e extensão da vida útil de materiais existentes, eles estariam caindo em um limbo ou jogados no lixo? Não tenho informações suficientes para avaliar essa suspeita, que pode ser somente uma impressão ao acaso, já que eu realmente não conheço a cidade.

IMG_20170331_150113063_HDR

Em seguida paramos em uma oficina de marcenaria. Quem nos atendeu foi o Alvaro, um português forte, já com mais de setenta. Disse que seu sócio trabalha naquela oficina há quatro décadas, e que naquela época as máquinas já eram antigas. De fato, os equipamentos de marcenaria eram muito antigos. E muito bonitos, por sinal. Passavam justamente essa sensação de terem sido feitos antes que a obolescência programada se tivesse tornado uma estratégia consciente da indústria. Ou ao menos, antes dela chegar aos equipamentos – imagino que os primeiros produtos feitos para quebrar tenham sido os produtos para consumidores finais, e só depois a tendência chegou aos bens de produção. Tive a impressão de que aqueles equipamentos ainda vão sobreviver aos seus atuais usuários, e se bem mantidos, quem sabe quantos mais?

Decidimos então desistir da busca por ferros-velhos, mas estávamos de todo modo satisfeitos com a jornada e decidimos voltar. Ainda aproveitamos para remexer algumas caçambas e garimpar materiais com algum potencial: uma placa de fórmica vermelha, ainda com a película plástica; dois daqueles carreteis nos quais os cabos coaxiais vêm enrolados; um pedaço de eucatex com restos de tinta azul.

IMG_20170331_152759723

De volta ao makerspace do Dínamo, ainda começaríamos a pensar sobre usos para esses achados. Reunimos também outras coisas trazidas pelos participantes do curso (uma coleção de amostras de lantejoulas, adesivos brilhantes, botões e outras coisas, além de um monte de cacos de louça coletados na praia ao longo de um ano). Fizemos alguns testes de conceito, mas vou deixar para contar isso no próximo post, junto com o que fizemos no último dia do curso, no sábado.

IMG_20170331_162810422

 

P.S.: Somente mais uma observação: ao andar por aquela região de Santos buscando potencialidades de reuso e extensão da vida útil, é impossível não perceber a grande quantidade de casas abandonadas. Infraestrutura ociosa, esperando novos usos. Eu sonho que soprem ventos transformadores no sentido de promover uma ocupação criativa, colaborativa e sustentável desses espaços, sem perder o diálogo com a história e fundamentalmente sem ceder aos impulsos “renovadores” que assolam localidades históricas no mundo inteiro com gentrificação, perda de identidade e outras distorções.

IMG_20170331_151506890_HDR

Anúncios

Um comentário sobre “Curso TransforMatéria – dia 2, tarde

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s