Tropicalizando a Economia Circular

No fim de abril, estive em Florianópolis para o workshop de aceleração da rede CE100 Brasil, organizados (a rede e o workshop) pela Fundação Ellen Macarthur. A Fundação trabalha com a articulação de iniciativas de economia circular envolvendo diversos setores, além de produzir conhecimento sobre o tema.

Minha presença por lá deveu-se ao interesse da unidade brasileira da Fundação em, por assim dizer, tropicalizar os conceitos de economia circular, misturando a inovação de ponta com a inovação nas pontas sobre a qual já escrevo há alguns anos. Para mim, foi uma oportunidade de dedicar algumas horas a ler um pouco mais sobre economia circular e refletir sobre como ela pode dialogar com projetos passados, presentes e futuros.

Publico abaixo o roteiro que havia preparado para minha exposição no workshop. No dia, essa escolha de assuntos acabou sendo ampla demais para os quinze minutos a que tinha direito, e a apresentação infelizmente ficou espremida. Acho que, como eu estava em um ambiente novo, senti que precisava me apresentar e acabei me estendendo demais em algumas questões. Por outro lado, revendo o roteiro sinto que ele tem de fato elementos importantes: a tropicalização, a gambiarra e os labs como inovação nas pontas, entre outros. Então publico ele ainda maior do que era no dia, expandindo-o em alguns pontos. Assim, aviso que é possível que partes desse roteiro repitam coisas que já publiquei neste blog ou avancem pontos de relatos que ainda vou trazer em detalhes (em especial sobre a residência em Nantes).

Quero mais uma vez agradecer à Luisa Santiago e à Fundação Ellen Macarthur pelo convite. Conheci pessoas interessantes e aprendi bastante durante o workshop, e espero poder contribuir de alguma forma para as discussões.

Mata Atlântica

Fico feliz em participar desta conversa, para a qual quero trazer um pouco a perspectiva da inovação nas pontas, e como isso pode contribuir para a construção de economia circular no Brasil. Fico feliz também de voltar a Florianópolis depois de quinze anos em que não passei mais do que algumas horas aqui. Eu sou gaúcho, aquele povo quase sem praia que invade Santa Catarina sempre que esquenta um pouco. E vivo há oito anos em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Ubatuba compartilha algumas condições com Floripa. As praias, o mar, o magnetismo da qualidade de vida que atrai pessoas talentosas e conscientes. Temos muito a aprender com Floripa a respeito da utilização de tecnologias para construir alternativas à sazonalidade da economia do turismo de massa.

Mas eu quero falar um pouco mais sobre outra particularidade que temos em comum, Ubatuba e Florianópolis, em comum. A Mata Atlântica. Não sei qual a familiaridade que vocês têm com esse pedaço de nossas geografia e história. A Mata Atlântica costumava cobrir boa parte do leste do território brasileiro. Ia do que hoje é o Rio Grande do Norte até o norte do Rio Grande do Sul. Pegava toda a faixa leste do litoral, e em alguns lugares avançava tanto ao interior que chegava a pedaços do Paraguai e da Argentina.

Da extração do Pau-Brasil que chegou a rebatizar a antiga Terra da Santa Cruz, ao longo dos séculos a gente passou a derrubar florestas inteiras. Para extrair minerais, plantar cana e depois café, criar gado, estabelecer indústrias e cidades. Boa parte do que se extraía por aqui ia para outros países. Desde o começo. Uma parte considerável desses recursos era matéria-prima ou forneceu abundância de capital que contribuiu decisivamente para materializar as tais revoluções industriais.

Em outras palavras, as revoluções industriais não foram resultado somente das geniais invenções mecânicas de homens brancos europeus. Elas também decorrem da destruição do hábitat de povos originários, quando não do genocídio desses povos através de pólvora, das doenças e da conversão. Da extinção de espécies endêmicas de fauna e flora. Da exploração do sangue e suor de escravos contrabandeados desde a África até este lado do Atlântico. E de modificações tão profundas na paisagem, que localidades que originalmente eram florestas tropicais hoje são desertos de pasto, com seu clima totalmente desequilibrado. O termo que se usa hoje para falar sobre essas contas não feitas é “externalidades”. Se a economia circular propõe que se revelem as externalidades negativas, é bom que comecemos relendo com essas lentes a história moderna e contemporânea de nosso lado do mundo.

E o que foi que ficou por aqui em troca de tanta destruição? Um pouco de dinheiro. Bem pouco, levando-se em conta as proporções de tudo que foi derrubado e levado embora. Da cobertura original de Mata Atlântica, restou menos de 10%. Mas o mundo (ainda) não acabou. A vontade humana sempre pode trazer alguma esperança. Ao longo das últimas décadas, a humanidade passou, ainda de que forma lenta, a prestar mais atenção a seu entorno natural. Algumas reservas de Mata Atlântica são reconhecidas como patrimônio mundial pela UNESCO. Florianópolis ainda tem uma cobertura de 25% da Mata Atlântica original. O estado de Santa Catarina, 24%.

Em Ubatuba, são mais de 80% de área preservada de Mata Atlântica. E minha pergunta, como pai de duas crianças que eu gostaria que crescessem em um lugar que se mantenha dessa forma, é: como a gente evita as armadilhas da ideia de “desenvolvimento”? Como estabelecer ciclos abundantes que reconheçam as unidades de conservação como patrimônio, e não como um entrave ao crescimento? Como fazer Ubatuba deixar de gastar uma parte considerável do orçamento municipal na exportação de lixo, e aproveitar todo o potencial que existe no resíduo sólido de criar oportunidades para a economia local?

Imagino que para o público presente aqui hoje, é fácil compreender quão inviáveis são os caminhos usualmente adotados para o “desenvolvimento econômico”: destruição e venda do patrimônio natural, homogeneização de populações, industrialização forçada. Mas é muito mais complicado propor alternativas melhores e demonstrar sua viabilidade em uma cidade pequena.

Ubatuba

Em 2010 eu criei o Ubalab, então um laboratório de cultura digital experimental. Tenho conversado com muita gente desde então. Pesquisadores, educadores, cientistas, permacultores, incorporadores, agricultores tradicionais, ongueiros, cervejeiros, inventores. Índios, quilombolas e caiçaras, gestores públicos e ativistas. E os aposentados de diversas áreas, aquelas pessoas que tiveram mais bom senso que eu e esperaram se aposentar para ir morar na praia.

Com projetos do Ubalab, eu consegui fazer algumas coisas para aproximar essas pessoas e promover alguma troca ente elas e outras, de Ubatuba e de fora. Organizamos quatro edições do Tropixel, um festival internacional de arte, ciência, tecnologia e sociedade. Trabalhamos em um projeto de pesquisa sobre ciência aberta em Ubatuba. E há pouco mais de um mês, demos a partida em uma incubadora colaborativa dedicada preferencialmente a projetos de inovação socioambiental.

No primeiro encontro da inc.ubalab, em março, eu esperava que quatro ou cinco iniciativas se inscrevessem para apresentar. Foram dezoito, dos mais diversos: fogão solar, praça agroflorestal, centro cultural autogestionado, bicicleta anfíbia, campanha de proteção a pássaros. Monitoramento colaborativo de áreas preservadas e de qualidade de água, mapas colaborativos. Pranchas de stand-up feitas com garrafas PET. Uma criptomoeda cooperativa.

Quase todas essas iniciativas são moleculares: na prática, conseguem resolver questões ultralocais. Mas cada uma delas dialoga com referências mais amplas. E juntas começam a construir um terreno fértil para pensar as grandes questões, como o tal desenvolvimento. Na minha opinião, a economia circular tem algo a contribuir para isso.

Além de articular a inc.ubalab, eu também tenho uma iniciativa em desenvolvimento por ali. O Prisma é um programa de educação para inovação socioambiental. A ideia é atuar no gap de formação que a cidade enfrenta, em parte pela ausência de oferta de ensino superior. A consequência dessa condição é que, após o ensino médio, a juventude mais talentosa da cidade precisa escolher entre ir embora para continuar estudando, ou permanecer numa cidade sem muitas oportunidades de educação ou trabalho. Muitos decidem sair, e a cidade não atrai um volume equivalente de gente em condições semelhantes. Entretanto, a cada ano uma quantidade considerável de profissionais que atuam em áreas ligadas a tecnologia, economia criativa, sustentabilidade e outras especialidades mudam-se para Ubatuba com suas famílias. São pessoas que já conseguem escapar de uma rotina de escritório ou podem trabalhar remotamente, e estão em busca de qualidade de vida. O Prisma é uma maneira de mobilizar os conhecimentos, a disponibilidade de tempo e o desejo de impacto socioambiental dessas pessoas para formar as novas gerações. Daqui a quinze anos, eu espero que o Prisma tenha se tornado uma organização dinâmica que desenvolve pesquisa e tem uma oferta de ensino superior para inovação socioambiental que atenda à cidade e entorno.

A aproximação entre inc.ubalab e Prisma me faz recordar da empolgação de quinze anos atrás. Vou contar um pouco dessa história para chegar ao ponto que me trouxe à economia circular.

MetaReciclagem e Cultura Digital Brasileira

Em 2002 eu fazia parte do Projeto Metá:Fora, que se apresentava como uma “chocadeira colaborativa” de projetos de transformação digital. Tinha mais de cem pessoas no país inteiro, conversando por email freneticamente. Choviam ideias. Para testar algumas delas, a gente precisava de computadores. Nem precisavam ser nova, necessariamente. Muitas pessoas ali estavam curiosas por uma coisa era novidade para elas, um sistema operacional livre e aberto chamado (GNU)Linux. Então criamos uma iniciativa chamada MetaReciclagem.

Ao contrário de boa parte dos projetos que lidam com material eletroeletrônico hoje em dia, a primeira motivação da MetaReciclagem não era ambiental ou ligada a obrigações legais de implementar a logística reversa. O que nós queríamos era acesso a capacidade computacional. Passamos a organizar, em parceria com diversos tipos de organizações, o que chamávamos de esporos: laboratórios locais que recebiam doações de computadores descartados, consertavam e instalavam software livre, para então inseri-los em projetos sociais.

Não demoraria muito para entendermos o tamanho do problema dos materiais eletroeletrônicos. Acredito que todo mundo aqui saiba disso, mas os eletrônicos estão muito distantes da circularidade. A reciclagem é poluente e custa caro, os materiais que têm valor considerável de mercado são uma parte ínfima do produto e de difícil extração, e a informalidade e precariedade são a regra. Um retrato claro disso é um documentário de vinte minutos chamado E Wasteland, dirigido por David Fedele. Ou qualquer vídeo sobre a extração do Coltan na República Democrática do Congo. E assim retornamos às externalidades negativas.

De todo modo, trabalhávamos com esses espaços que tentavam estender a vida útil desses materiais que já estão no mundo. De certa forma, tentando retardar um pouco a marcha linear do produto ao lixo. Tínhamos grupos de experts voluntários, além de pessoal cedido por diferentes projetos, e também gente que chegava para aprender fazendo.

Foi no contato com essas pessoas que travei contato com a ideia de inovação nas pontas, em contraponto a uma valorizada inovação de ponta. A gente via um monte de práticas criativas altamente relevantes em comunidades do Brasil inteiro, e um elemento que aparecia muito forte era a gambiarra.

Por mais que a gambiarra seja frequentemente associada à precariedade, à instabilidade e à falta de recursos, na MetaReciclagem a gente acabou entendendo o contrário. A gambiarra é o impulso de resolver uma questão concreta mesmo sem ter acesso aos materiais adequados ou às ferramentas apropriadas. Mesmo sem ter conhecimento específico para a tarefa, ou tempo suficiente para dedicar a ela. Parafraseando o designer cubano Ernesto Oroza, a gambiarra é uma criatividade desobediente. Uma apropriação crítica dos recursos materiais que estão à mão. Ela não é carente. Pelo contrário, enxerga o mundo como abundante.

A gente chegou até a avançar um pouco pesquisando a gambiologia, os estudos da gambiarra como prática criativa tipicamente brasileira, e nisso conhecemos o trabalho do coletivo gambiologia, de Belo Horizonte.

A partir de 2003, muitos integrantes da MetaReciclagem foram convidados a contribuir para a construção de uma política de cultura digital, capitaneada pelo ex-ministro Gilberto Gil. Constituímos um grande movimento coletivo chamado “articuladores”, que rejeitava qualquer filiação partidária, e propunha uma cultura digital brasileira baseada em alguns princípios: a autonomia, inspirada em Paulo Freire; a generosidade intelectual expressa nos códigos abertos e nas licenças livres; a criação de uma ampla rede de articulação e trocas. Fazíamos uma releitura de algumas referências culturais brasileiras do século XX, em especial a antropofagia e o tropicalismo. Encontrávamos paralelos entre o coletivismo das redes digitais e a imagem do mutirão – o esforço coletivo temporário, orientado a resultados. Era nossa maneira de tropicalizar a cultura digital, um esforço que me parece ser necessário também para a economia circular.

Labs experimentais

A vivência da construção da cultura digital brasileira me colocou em contato com um monte de iniciativas internacionais que por volta de 2007 passavam a se apresentar como “laboratórios”: Medialab Prado em Madrid, Hangar em Barcelona, Waag em Amsterdam, Tesla em Berlim, Baltan em Rotterdam, Kitchen Budapest, PiNG em Nantes, entre outros. Já havia criado, com colegas de Holanda e Inglaterra, uma rede internacional chamada Bricolabs que dialogava com a ideia de bricolage. Em 2010, montamos no Brasil uma plataforma de pesquisa sobre laboratórios experimentais, a Rede//Labs. Isso virou o tema de minha dissertação de mestrado na Unicamp. Cheguei à imagem dos labs como espaços intencionalmente deixados em branco, nos quais o improvável pode acontecer.

Nesse período, os labs se multiplicaram. Se em 2010 meu interesse estava em algumas dezenas de iniciativas, desde então o cenário escalou para a casa dos milhares. Misturando nomes (hacklabs, makerspaces, fab labs, innovation hubs, co-working, entre outros) e engendrando arranjos experimentais muito criativos e produtivos. Esse foi um dos principais meios de propagação da assim chamada “cultura maker”, que propõe um retorno à materialidade, agora facilitada pelos equipamentos de fabricação digital.

A imersão no universo dos labs, seus arranjos e implicações foi intensa. Passei algum tempo trabalhando nessa escala dos discursos, das políticas culturais e da possibilidade de escapar das amarras estuturais que neutralizam toda inovação. Isso de certa forma me afastou da perspectiva da materialidade que estava mais presente na MetaReciclagem. Mas recentemente eu voltei a trabalhar nesse eixo.

Transformatéria

Transformatéria é uma pesquisa aberta sobre a “transformação de matéria”, que é minha proposta de um guarda-chuva no qual cabem as novas tecnologias de fabricação digital, mas também os consertos, o artesanato, e outras práticas bastante presentes na vida contemporânea.

Esse caminho se iniciou em 2014, quando fui convidado a fazer uma residência em Doha, a convite da VCUQatar. O tema era justamente a gambiarra. Eu trabalharia com 10 estudantes do mestrado em design da VCUQ durante duas semanas.

A universidade tem uma biblioteca excelente, uma coleção de amostras de materiais fantástica e um monte de equipamentos de fabricação digital e ferramentas disponíveis. Mas eu estava interessado em outras coisas. A partir da minha história com a gambiarra no Brasil, perguntei duas coisas ao grupo de estudantes: o que acontece com o lixo no Catar, e quem são as pessoas que sabem fazer as coisas. Em busca de respostas, decidimos sair a campo. E encontramos naquele país algumas contradições extremas da economia linear.

Em primeiro lugar, fomos procurar os saberes tradicionais. Visitamos tapeceiros, alfaiates, marceneiros, sapateiros, relojoeiros. Eram todos estrangeiros, e já passados da meia idade. Alguns passavam a impressão de que até suas mãos guardavam muito conhecimento – sobre materiais, caimentos, resistência, elasticidade, encaixes. Usavam máquinas fabricadas antes do nascimento de seus filhos, hoje adultos. As máquinas ainda funcionam, com alguma manutenção periódica. Já os filhos, não aprenderam o ofício. Ouvimos mais de uma vez que eles mesmos haviam incentivado os filhos a buscarem outras atividades que rendem mais nos tempos atuais. Motorista, por exemplo.

Se não os filhos, poderia haver outros jovens com tempo livre para tornarem-se aprendizes daqueles ofícios, mas até onde vimos não era esse o caso. No Catar dos dias de hoje, os estrangeiros só são admitidos se estão estudando, ou se têm um contrato de trabalho e dinheiro para pagar o visto, que não é barato.

O que vai acontecer com aqueles ofícios tradicionais à medida que os artesãos se aposentem? Provavelmente vão desaparecer e o mercado fornecerá os produtos (que vão virar lixo mais cedo, claro), ou o país vai importar mais artesãos de outros lugares do Oriente.

Um caso emblemático era o dos sapateiros. Conversamos com dois deles, que contam com saudade dos tempos passados. Até há alguns anos, a sociedade costumava consertar sapatos, e por vezes até encomendar sapatos feitos à mão. Hoje, as pessoas compram sapatos importados, e quando eles estragam vão direto para o lixo. O trabalho dos sapateiros só sobrevive por conta do exército. O serviço militar dura, se bem me lembro do relato, dezoito meses. E os soldados recebem somente um par de coturnos para todo este período, então recorrem frequentemente aos sapateiros.

Existe uma perspectiva de compreensão da modernidade que infere, a partir desse episódio, que talvez o trabalho do sapateiro não seja mais necessário, uma vez que a indústria consegue suprir a necessidade de sapatos da sociedade. Eu discordo: a produção industrial tradicional descarta saberes que poderiam estender a vida útil dos sapatos, concentra riquezas que poderiam estar distribuídas por toda a cadeia, e ainda por cima produz muito lixo.

E aí volto à primeira pergunta que havia feito ao grupo da VCUQ: o que acontece com o lixo em Doha? Na prática, ninguém ali – estudantes ou professores – sabia dizer ao certo. Possivelmente, sugeriram, “jogar fora” significava “largar no deserto”. Aventaram a possibilidade de perguntar a alguém do governo, mas provavelmente esse seria um assunto delicado por lá. O país quer projetar ao mundo uma imagem futurista de parque temático, e não há espaço para lixo nesse tipo de cenário.

Alguém chegou a contar a história, ou lenda, de que o governo haveria investido na criação de um parque de reciclagem com as máquinas mais avançadas, trouxe engenheiros europeus para planejar, construir e pôr tudo em funcionamento. E só então se depararam com o fato de que qualquer material que fosse reciclado no Catar acabaria encalhado, pelo fato de que não existe indústria local. O custo para exportar matéria reciclada pelo mar inviabilizaria qualquer operação. Não sei até que ponto o causo é verdade, exagero ou invenção, mas duas semanas de Doha me deixaram até predisposto a acreditar.

De toda forma, alguém contou que sabia de um lugar interessante onde eram depositados pneus, e também de um ferro-velho de automóveis.

Tomamos a autoestrada saindo de Doha pelo meio do deserto. Em pouco mais de meia hora, chegamos ao primeiro destino. Eram milhares de pneus, empilhados a esmo, em parte já cobertos pela fina areia que o vento carrega, estendendo-se por centenas de metros. Pensei no problema que seria um cenário semelhante na Mata Atlântica, e visualizei uma nuvem de mosquitos da dengue. Mas ali no deserto, onde a chuva é rara e os insetos são outros, esse problema não existia. A pilha de pneus até tinha seu charme estético, destoando do horizonte plano e monótono. Talvez com o tempo aqueles montes de material se tornem altas dunas, quem sabe. Mas naquele caso específico, se trata de material relativamente homogêneo. Cheguei até a encontrar pneus feitos no Brasil, mas de modo geral não havia mais do que pneus. Bem diferente era o lixão de automóveis, cercado e fechado. O guarda não nos autorizou a entrar, deveríamos ter solicitado ao superior dele com antecedência. Então só ficamos ali pela frente. Mais uma vez, a escala impressionava. Centenas de carros, enfileirados, cercados por alambrado que também acumulava sacos de papel trazidos pelo vento através do deserto. Alguns automóveis estavam cobertos por uma fina camada de areia. Muitos pareciam seminovos, e jaziam ali. Do lado de fora havia alguns mais quebrados, empilhados, como esculturas tristes dedicadas à era do automóvel e aos combustíveis que enriquecem e garantem poder à vizinhança imediata daquele país.

Fizemos algumas coisas interessantes nos dias seguintes: a exploração das tecnologias de fabricação digital para a reutilização de materiais – tema que ainda me provoca até hoje – e um evento dedicado ao conserto de coisas quebradas. Mas no fim das contas, o que mais me impressionou foi a percepção de que as dinâmicas algo surreais que vi no Catar podem ser uma tendência a que estamos inclinados também no Brasil. O consumo extremo; a total ignorância – mesmo entre estudantes de design – sobre de onde vêm, como são feitas e para onde vão as coisas; uma espécie de fixação na modernidade ocidental que parece mais representação do que mais nada – com shopping centers, roupas que não amassam, carros grandes, ar condicionado e arquitetura internacional -; e a total desvalorização dos ofícios manuais. Não posso dizer que não vi coisas parecidas durante os sete anos que vivi em São Paulo, por exemplo.

Foi a partir daquela vivência que fiquei primeiro incomodado e depois contrariado com a tendência que também estava assistindo ao longo da evolução da tal “cultura maker”. Parecia que um amplo universo de possibilidades de transformação do mundo estava adotando o vocabulário da grande indústria (aquela pesada, poluente, linear, excludente) e assim se enquadrando nas lógicas fáceis do mercado. A partir das anotações de Doha e de outras conversas, me animei a escrever um texto em inglês chamado “Gambiarra: repair culture”. E esses temas acabaram por retornar ao centro do meu radar.

No ano passado, ainda em busca de escapar desses enquadramentos que me parecem limitadores, comecei a trabalhar com a ideia de “transformatório” como definição mais adequada ao que me interessa nessas novas tecnologias do que “cultura maker” ou “fabricação digital”. Me inquietava tentar aproximar esse universo maker – branco, urbano, de classe média, formalmente instruído e hiperconectado – de outras manifestações da cultura material como o artesanato, os consertos, a produção em pequena escala, os cuidados com a terra e a comida. Me parecia, e ainda parece, que existe uma relação ainda pouco explorada sobre materialidade, sensibilidades além da mente, ancestralidade, pequenas inovações voltadas a soluções concretas e funcionais.

O projeto Transformatéria surgiu nesse ponto, como uma pesquisa que antecedia a formulação dos transformatórios. Justamente para, antes de pensar em espaço físico, equipamentos e atividades, conseguir mergulhar um pouco mais nesse universo da materialidade. Concebi a Transformatéria junto com minha esposa Carolina Striemer, que é designer, joalheira e artesã. Fizemos no ano passado uma sequência de imersões que caminhavam neste eixo: eu participei de uma conferência sobre estudos sociais da ciência em Barcelona, na qual estavam colocados diversas discussões ligadas às implicações sociais das tecnologias de fabricação digital. Depois, passamos algumas semanas em Nantes, na França – uma cidade que desenvolve ações inovadoras de gestão de resíduos e inovação aplicada a questões ambientais, entre elas iniciativas explicitamente voltadas à economia circular. Estávamos lá a convite do PiNG, que mantém uma oficina de consertos em sua sede, e um laboratório de fabricação digital chamado Plateforme C em uma área em renovação dentro da Ilha de Nantes, ao lado do centro da cidade. Por último, passamos um mês em Luneburgo, onde eu era pesquisador convidado do DCRL da Universidade Leuphana e trabalharia com o tema “Design e Conserto”.

Ainda preciso encontrar tempo para escrever mais a fundo sobre as etapas de Nantes e Luneburgo. Resumindo ao máximo, em Nantes eu entendi a importância de um sistema bem desenhado para constituir campo fértil para inovações. Comecei também a desenhar um quadro da transformação da matéria que segue três escalas:

  • Conhecimento acumulado, na forma de cultura e ciência acumuladas ao longo da história da humanidade;
  • Habilidades, técnicas e ferramentas;
  • Trabalho humano aplicado.

A experiência com o Plateforme C também me fez ver o potencial de pensar o laboratório de fabricação não necessariamente como desvio voltado à renovação da indústria pesada, mas sim como um retorno às oficinas de artesãos, às relações humanas e aos saberes incorporados ńos sujeitos e em seus corpos. E o esqueleto da minha palestra em Nantes deu origem a dois textos, por enquanto disponíveis somente em inglês: Transformed worlds; Knowledge, skill and labor.

Já o período na Alemanha trouxe questionamentos a respeito da própria necessidade de centralizar todos aqueles saberes, técnicas e esforço em espaços novos e situados nesses contextos contemporâneos. Entendi que a melhor maneira de atacar a questão não seria, por exemplo, criando em Ubatuba um transformatório que possibilitasse acesso a todas as máquinas possíveis. Pelo contrário, o ideal seria encontrar no próprio território aqueles lugares onde já existem ferramentas, máquinas, instalações, técnicas, saberes, experiência com materiais e soluções. Pensar em redes de transformatórios, que se por um lado incorporam a cultura maker digital, de outro também abarcam todas as oficinas de marceneiros, serralheiros, torneiros mecânicos, de conserto de bicicletas, automóveis, telefones celulares e panelas, as costureiras, os sapateiros, alfaiates, as cozinhas de restaurantes, as bancadas com ferramentas nas garagens de famílias. O faz-tudo, o tio da gambiarra, o mestre de obras e o pedreiro. Todos que fazem o mundo, e também seus saberes, técnicas e disposição. Todos já estão atuando. Já sabem muito mais sobre aquilo que fazem do que qualquer maker digital pode imaginar. E cotidianamente inovam. Assim, nas pontas.

Tropicalizando a Economia Circular

Foi em meio à construção da Transformatéria, no ano passado, que passei a prestar um pouco mais de atenção à tal economia circular. O evento em Nantes em que eu daria uma palestra falava sobre o tema. Um email de um contato inglês, algumas semanas antes de embarcar, mencionava a rede brasileira. E dessa primeira curiosidade eu gostaria de comentar algumas coisas.

A primeira coisa que chamou minha atenção foi que uma pesquisa na internet por imagens de economia circular, tanto em português quanto em inglês, vai retornar um monte de diagramas. É possível que isso mude com o tempo, mas por enquanto a primeira foto aparece por volta do 100º resultado. Para contemporizar, posso aceitar que, sendo um assunto novo, ainda existe muito mais para inspirar do que para concretamente mostrar. Ainda assim, chamou minha atenção.

Indo mais fundo ainda, nos 99 diagramas que figuram entre os 100 primeiros resultados, só se pode encontrar pessoas representadas como consumidores ou usuários. De resto, são ícones de fluxo de materiais ou de plantas industriais. Ou seja, os saberes e esforços humanos colocados no design de produtos, na extração de matéria-prima e sua transformação, na separação, triagem, deposição, upcycling e outras atividades não estão colocados. Assim, os transformatórios – espaços descentralizados dedicados à transformação de matéria e baseados em conhecimentos, técnicas e trabalho – ficam de fora do desenho da economia circular. Isso já é problemático na Europa, mas se torna crítico quando se tenta transpor o modelo para o Brasil. Por aqui, os consertos e adaptações, o reuso e o recondicionamento têm importância não somente ambiental como também socioeconômica. Tropicalizar a economia circular é reconhecer e incorporar esses aspectos. Não incorporá-los é no mínimo um desperdício de saberes, habilidades e braços. E desperdício me parece antagônico à economia circular.

Eu chego a ver alguma contradição na intenção de construir uma economia circular de cima para baixo, seguindo um esquema predefinido desenhado em algum lugar exclusivo, para ser seguido pelo restante do mundo. Penso que a circularidade verdadeira deve ser iterativa: propõe-se um modelo, testa-se e com isso se aprende para rever o próprio modelo. Incorporar as pontas, deixar a inovação de baixo para cima mostrar a que veio.

E isso me traz até à metáfora essencial da economia circular. O vídeo exibido no site da Fundação é bem didático, mas aquela floresta que aparece no começo tem a aparência de um bioma temperado do hemisfério norte. A começar pela própria noção de espécies isoladas, nas quais a circularidade é fácil de entender (e de transpor para o cenário industrial com muros altos entre produção e consumo, entre um produtor e o outro). Já aqui na Mata Atlântica, as identidades são mais difusas. Diversidade, simbiose, cooperação, competição, parasitismo, espécies endêmicas, transformação do território – são frequentemente parte do cenário. Existem camadas e mais camadas de vida, existem superorganismos compostos por diversas espécies. Existem ciclos longos de destruição e regeneração das florestas como um todo que vão muito além da reposição de nutrientes. Os sistemas agroflorestais tropicais, por exemplo, podem dar pistas muito importantes para pensarmos economias circulares que em vez de serem um retrato reduzido de uma aula da quinta série adotem uma inspiração verdadeira na natureza da nossa terra, observando seus processos, acelerando onde necessário e adaptando o que for preciso. Que a Mata Atlântica possa contribuir para essa discussão!

Obrigado pela atenção.

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