Castells

A relação entre a mão de obra e a matéria no processo de trabalho envolve o uso de meios de produção para agir sobre a matéria com base em energia, conhecimentos e informação. A tecnologia é a forma específica dessa relação.

Castells, M. 

De volta…

Encerramos a viagem de pesquisa do projeto Transformatéria. Estamos de volta ao Brasil, inicialmente em São Paulo. Estou editando mais um vídeo, e em breve publicaremos também algumas reflexões surgidas no período. Agradeço mais uma vez o interesse e o apoio.

Escrevendo…

Um pedaço solto:

Para contrabalançar a iminente captura e assimilação do potencial transformador das práticas exercidas nos espaços de cultura maker, pode-se apontar para o fato de que as mesmas tecnologias e práticas têm grande potencial não somente para a fabricação de novos objetos, mas também para os consertos e reparos (THE RESTART PROJECT, [s.d.])⁠. De fato, em alguns contextos pode-se ver uma aproximação entre a cultura maker, o reuso de objetos e sua ressignificação1. Mas é importante atentar para duas questões. A primeira é que as práticas deste universo que recebem atenção da mídia e da opinião pública de forma generalizada são aquelas ligadas essencialmente à inovação e ao empreendedorismo industrial em grande escala. A segunda é que mesmo quando os consertos são mencionados, ainda assim pouca referência se faz aos profissionais já estão em atuação na sociedade. De certo modo, novas práticas de conserto de objetos estão sendo experimentadas, mas em troca ignoram-se as gerações anteriores. Steven Jackson recorda que trabalhar com objetos descartados ou defeituosos é uma atividade ancestral, que sempre fez parte da história das tecnologias (JACKSON, 2014)⁠. De que forma os novos “consertadores” não estariam desta forma descartando um vasto universo de conhecimentos práticos e habilidades tão antigos quanto a humanidade?

Esta exclusão tem obviamente um paralelo na fabricação digital. Quando os novos makers promovem a ideia de uma fabricação distribuída respondendo a problemas locais como uma novidade revolucionária, não estariam também eles deixando de contemplar aqueles ofícios que fizeram isso por muito tempo? De fato, antes da ascensão da indústria de massa no século XX, os objetos utilizados por boa parte da população eram produzidos em pequenas indústrias e oficinas artesanais. À medida em que a indústria passou a oferecer alternativas mais acessíveis em decorrência da produção em escala, do uso de novos materiais e outros fatores, grande parte destes ofícios desapareceu. Alguns deles permanecem, como é o caso dos artigos de luxo, das peças decorativas ou artísticas, ou ainda das soluções feitas sob medida. Outros também sobrevivem talvez por sua natureza híbrida entre a fabricação e o conserto, como é o caso do trabalho de sapateiros, marceneiros, serralheiros, costureiras, entre outros. Mas onde estão estes profissionais e suas habilidades nos mapas desta “nova cultura maker”?

1N. do A.: Eu tive a oportunidade de passar algumas semanas como pesquisador convidado na cidade de Nantes, na França, onde um conjunto de iniciativas que trabalham com a recuperação e o conserto de objetos descartados por cidadãos e organizações vêm se organizando. Existem na cidade espaços que oferecem tais materiais para artistas, hobistas e famílias de baixa renda. Os interessados podem também utilizar a infraestrutura de lugares como o FabLab Plateforme C para reutilizar os materiais, ou o Atelier Partagé du Breil para consertar e recuperar objetos com defeitos.

Nartisan

Iuri republicou o manifesto Nartisan, cuja primeira versão já completou doze anos:

nArtisan

“…É o estado de espírito de uma pessoa que, agredida pelas estruturas autoritárias e centralizadoras, sente o impulso de construir caminhos alternativos, bases tecnológicas que sirvam de espaço livre para a ação desejada mas negligenciada pelas autoridades/comandos no poder. O artesão de redes compactua com as autoridades/controles na medida em que, para obter uma base mínima de vida, precisa jogar na lógica das trocas com o poder estabelecido. Mas ele vive outra lógica – a do compartilhamento, o mutirão improvisado – e a sensação de que a rede pode libertar sua ação o empurra para fazer o que precisa, pelas próprias mãos. Na rede, onde o básico é gerado em colaboração autônoma e voluntária, onde as pessoas escolhem suas responsabilidades de acordo com seus sentimentos, o nartisan experimenta uma outra ética, menos permeada pelos preconceitos que impregnam as táticas de troca, que também contribui para movê-lo. Assim, a experiência da rede colaborativa, enquanto existe, alimenta a esperança do artesão por uma lógica diferente de convívio humano…”


o manifesto do artesão de redes

Daniel Pádua

versão 1.1

OUTLINE DO MANIFESTO

O artesão emergente

Nartisan é a contração de networks’ artisan, ou artesão de redes, se preferir. Ele é o impulso que move alguém para uma filosofia emergente de ação social disparada num estado de sensibilidade intensa e especificamente estranho às estruturas sociais de massa (escola, governo, igreja, indústria cultural, etc.): é o espírito de alguém cansado e agredido pela constante exigência de um raciocínio autoritário em suas relações, que revigorado pelas ações em rede em que mergulha, tende a empregar toda sua força na criação de novas tramas sociais. Novos emaranhados de interações descentralizadas, não-hierárquicas e emergentes, que mesmo durando um instante valem para o Nartisan mais do que uma vida de consenso, pela simples sensação de que seu olhar e sua expressão transformaram o mundo do outro. Mundo enquanto babel de mapeamentos psíquicos, que num jogo de sedução imprevisível, comovem e atraem. Destroem antigas associações e constroem novas redes.

O Nartisan vive marcado pelos carimbos imundos da instituição porque depende dela enquanto o jogo da sobrevivência é na base da troca. Por conta de sua fome e sede, o Nartisan precisa se torturar sob o machado que sempre pendeu sobre seu coração… pela mão chefe, do prefeito, do diretor de TV. Mas o Nartisan que se formou na brincadeira de roda da turma, na comunidade de programadores livres ou na ficção libertária de um sonho ou de um RPG cyberpunk, ele sente que o jogo pode seguir outra lógica. Ele sabe que a propriedade permite e expropriação. Que a rua é de todos e assim será enquanto durar o respeito mútuo nas brincadeiras. Seu único problema é que todas as ruas foram tomadas, e a maioria das outras pessoas preferiram esquecê-las a tomá-las dos ladrões. Para viver sua “outra lógica”, o Nartisan torna-se um mago, um feiticeiro que na falta do espaço, cria suas “ruas” no tempo. Aproveitando as novas travessias para puxar assunto em pleno caminho, o Nartisan catalisa conversas que se tornam brincadeiras jogadas num ritmo diferente: o ritmo da passagem de cada um.

É o estado de espírito de espírito de uma pessoa que, agredida pelas estruturas autoritárias e centralizadoras[1], sente o impulso de construir caminhos alternativos, bases tecnológicas que sirvam de espaço livre para a ação desejada mas negligenciada pelas autoridades/comandos no poder.

O artesão de redes compactua com as autoridades/controles na medida em que, para obter uma base mínima de vida, precisa jogar na lógica das trocas[2] com o poder estabelecido. Mas ele vive outra lógica – a do compartilhamento, o mutirão improvisado – e a sensação de que a rede pode libertar sua ação o empurra para fazer o que precisa, pelas próprias mãos. Na rede, onde o básico é gerado em colaboração autônoma e voluntária, onde as pessoas escolhem suas responsabilidades de acordo com seus sentimentos, o nartisan experimenta uma outra ética, menos permeada pelos preconceitos que impregnam as táticas de troca, que também contribui para movê-lo. Assim, a experiência da rede colaborativa, enquanto existe, alimenta a esperança do artesão por uma lógica diferente de convívio humano.

A rede conjurada

A rede, o artesão sente como sendo qualquer espaço de interação onde suas ações são medidas e direcionadas apenas por ele mesmo, e não por outro elemento deste espaço. Na rede ele se joga em sua vontade e se responsabiliza pelo que acontecer. Responsabilidade diante de si mesmo, e não diante de algum outro. Para que, da sinceridade de seus atos, aprenda a combinar ações com os outros, também sinceros.

A rede pode ser vista como um conjunto de três partes… sua condição física, seu esquema lógico, e as próprias interações que se desenrolam sobre ela.

As táticas improvisadas

Na busca pela rede que suporte a interação ansiada, o artesão lança mão de todas as táticas [visão técnica] que a criatividade consegue conjurar. De sinais de fumaça, a copos de iogurte ligados por barbante, a computadores reciclados ligados em rede. Do lixo à comida plantada na sacada do apartamento. Não importa a tecnologia contando que sua demanda de sentimento seja resolvida.

Ao conjurar suas redes através destas táticas diversas, o nartisan percebe que o uso persistente de uma tecnologia enfraquece sua capacidade de criar novas redes, pois elas podem se desatualizar em relação às sub-redes que emergem em seu seio e ao seu redor. Técnica, meio, formato, são eternas variáveis com as quais o espírito nartisan brinca para imaginar pontes não-controladas entre as pessoas.

As ações sentidas

Usando as redes, o nartisan pode fazer coisas boas ou ruins para os que estão à sua volta. As ações desencadeadas numa rede podem ser muito diversas em vários aspectos.

Os exemplos notáveis (as crônicas nartisan)

Paulo de Tarso, grandes políticos e interlocutores, cientistas e inventores, improvisadores, etc.

O despertar nartisan

A condição nartisan emerge quando chegou a hora de você agir por conta própria, e se dá conta de que os instrumentos ao seu alcance foram conquistados há tempos e agora são oferecidos a você como uma forma de te controlar. Neste momento, a necessidade impulsionada pelo incoformismo acende a fagulha da criatividade, e o artesão enxerga instrumentos alternativos dispersos pelo espaço, ignorados pela autoridade/controle. E através suas técnicas improvisadas faz acontecer o que busca.

Muitas vezes diante do controle das coisas que queremos usar, deixamos para lá porque a necessidade da ação não era imensa. E pouco a pouco, este comportamento nos domestica. O espírito nartisan parece algo cada vez maiss distante de nossas reais personalidades. Mas ele ainda está lá.

Mexa essa bunda gorda e crie suas redes. Encontre os instrumentos alternativos e crie as táticas de que precisa. Seja um camaleão tecnológico. Um ciborgue movido pela própria poesia.

[1] o artesão não é movido pela destruição da autoridade, mas pelo vislumbre da liberdade de agir a seu modo.


Espelhos e espalhos


dpadua eterno ❤

Links

Preparando para inaugurar o semestre sobre “Design and Repair” no DCRL da Universidade Leuphana aqui em Lüneburg. Mando abaixo alguns links que coletei ao longo dos últimos meses, e que estão orbitando minhas pesquisas atuais:

Reta final da campanha

Desde que concebemos o projeto TransforMatéria, colocamos no ar uma campanha de arrecadação no Catarse. A ideia era que a campanha nos ajudasse a financiar os custos da viagem e manutenção, além daquilo que vamos fazer ao voltar ao Brasil. Com o desenrolar das articulações das diferentes etapas do projeto, uma parte considerável dos recursos de transporte e hospedagem foi bancado por alguns parceiros institucionais. Quero em particular agradecer:

  • Ao Liinc/IBICT por ter bancado minha passagem a Barcelona e participação no STS;
  • Ao PiNG pela ajuda e hospedagem em Nantes;
  • Ao DCRL da Universidade Leuphana pelo período em Lüneburg.

Os apoios institucionais nos deixaram relativamente tranquilos: a vinda à Europa e hospedagem estariam praticamente garantidas. O restante seria complementado com recursos próprios e a campanha. Mas não precisaríamos alcançar o total do que pedimos no início.

Recebemos o apoio de algumas pessoas muito especiais através do crowdfunding. São familiares, amigxs e pessoas que ainda não conhecemos que nos possibilitaram, além de ter a garantia de sobreviver melhor, também fazer algumas coisas a mais nessa viagem: a etapa em Saint-Amand-en-Puisaye acontece com o apoio da campanha, por exemplo. E o nosso rombo particular nas finanças familiares vai ser menor à medida que o financiamento coletivo tiver mais e mais sucesso.

Mas como já passamos da metade do período da viagem, decidimos que a campanha se encerra daqui a oito dias. Então, além de agradecer a todas as pessoas que já contribuíram, queremos mais uma vez pedir ajuda para divulgar o link da campanha:

https://www.catarse.me/transformateria

Vou continuar documentando nossos achados neste blog. Na semana que vem tem muita coisa chegando!