Curso TransforMatéria: Cultura maker na cidade

17457937_1649569915349995_3495424835290310721_nEstou empolgado preparando o programa do curso que fui convidado a ministrar semana que vem no Lab Santista organizado pelo Instituto Procomum. Vai ser uma maneira de organizar e visualizar de maneira mais concreta algumas reflexões desenvolvidas ao longo do ano passado no projeto TransforMatéria e neste blog.

Essa movimentação também está me dando energia para voltar a escrever – contando outras etapas da nossa viagem do ano passado, e também preparando um guia sobre cultura maker nas cidades, em que estou trabalhando junto com o Olabi, do Rio.

STS – Barcelona

A primeira etapa da viagem de pesquisa do projeto TransforMatéria foi um curto período em Barcelona, onde participei da conferência internacional de Estudos de Ciência e Tecnologia (STS, site aparentemente fora do ar). Estava lá principalmente por causa do projeto Ciência Aberta Ubatuba, sobre o qual submetemos um paper na sessão “Open Science in Practice”[1]. Estava acompanhado de Henrique Parra, que apresentou o paper, e Sarita Albagli, coordenadora do projeto. Nos corredores do Barcelona Forum acabei também encontrando alguns amigos e conhecidos, e conhecendo um monte de gente nova.

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Henrique Parra apresentando o projeto Ciência Aberta Ubatuba durante a STS

A STS foi um evento grande, com centenas de debates e alguns milhares de participantes. Uma das dificuldades que eu tive, aliás, foi decidir sobre quais sessões acompanhar. Era frequente haver paineis simultâneos sobre temas muito próximos. Isso me fez lembrar os bons tempos do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, que também dava um pouco essa sensação de uma tal abundância de conversas interessantes que chega a dificultar a escolha.

Foi curioso retornar à capital da Catalunha. Eu e Carol vivemos lá entre 2007 e 2008, e nunca mais visitamos a cidade. Desde aquela época, a cidade foi atravessada por algumas ondas de mudança. A primeira delas foi um aumento da gentrificação e do turismo predatório. Não que essas coisas não estivessem presentes quando estávamos por lá. Já eram preocupações centrais, por certo. Mas alguns meses antes desta viagem de agora, quando estávamos planejando nosso período por lá, comecei a entrar em contato com meus amigos da época, e descobri que quase ninguém mora mais em Barcelona. Alguns se mudaram para cidades menores. Muitos até deixaram para trás a Catalunha e a Espanha. Entre os que permanecem por lá, duas pessoas estão morando em lugares menores do que há nove anos. Aquele paraíso criativo onde era possível viver com pouco dinheiro e encontrar gente do mundo inteiro envolvida com projetos excitantes parece ter de fato encolhido bastante.

Por outro lado, Barcelona foi um dos palcos centrais das acampadas em 2011. Tornou-se um dos pontos cobiçados pelos novos partidos espanhois, e fez a ativista Ada Colau tornar-se sua primeira prefeita mulher, pelo Barcelona en Comú. Essas contradições – o extremo do capitalismo de espetáculo, com um turismo predatório e sem sentido, mas também as alternativas possíveis, o debate aprofundado, as novas invenções – são bem Barcelona. Confesso que esperava que a situação política do momento estivesse ainda mais tensa. A Espanha não tinha um governo federal, por conta do impasse na formação de maioria no parlamento. Mas esse assunto não chegava a atrapalhar o dia a dia, e ainda rendia assunto fácil para começar a conversar com os locais.

É uma cidade com uma trajetória peculiar, claro. Muito industrializada e desenvolvida no início do século vinte, com uma classe trabalhadora expressiva e bem organizada. Ali aconteceram importantes episódios, inclusive o confronto armado aberto (nas ruas, naquela mesma Rambla hoje tomada por turistas e suas câmeras) entre as forças anarquistas (com a presença do lendário Durruti, história contada por Enzensberger n’O Curto Verão da Anarquia), e defensores da ditadura de Franco. E para a perspectiva do projeto TransforMatéria, Barcelona tem milhares de exemplos de esmero na manufatura, com todos os detalhes art nouveau na arquitetura, além de representações contemporâneas de diversas formas de artesanato e artes manuais.

Chegar a Barcelona naquele quente início de setembro, então, evocava todo este cenário latente. E também as memórias cotidianas de quando vivemos lá. Nove anos atrás, fomos acolhidos por nosso amigo Mapuche, que por sinal acabamos visitando também nesta viagem de 2016, na França (ainda vou contar mais neste blog sobre o castelo de Guédelon, onde ele trabalha). Revisitando aqueles tempos, chegamos a ir a alguns parques, mercados e outros cantos que nos atraíam. Conhecemos algumas coisas diferentes também. Em particular a infraestrutura urbana para crianças, que conta com uma grande concentração de praças com brinquedos. De todo modo, foram meros seis dias em Barcelona, e isso em si já seria pouco tempo. Para encurtar ainda mais o tempo na cidade, o programa da conferência estava, como comentei, recheado.

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Playgrounds de Barcelona

Assim que cheguei na conferência, fiz e publiquei um pequeno vídeo:

Abaixo vão algumas anotações que fiz à medida em que acompanhava os muitos paineis da STS. Não é um registro detalhado, e sim um catado de impressões que colhi de forma aleatória. Em algumas ocasiões, eu ficava somente um pedaço da sessão. Em outras, perdia a atenção e ficava fazendo minhas coisas. Muitas vezes tive vontade de perguntar, conversar mais a fundo, mas o tempo não permitia. Em média, cada painelista tinha cerca de doze minutos para apresentar seu paper, e frequentemente não sobrava brecha para um debate propriamente dito ao fim. Ao fim das sessões, já havia as próximas, horário estourando. Isso foi um pouco cansativo, e de certa forma frustrante (embora, como comentei acima, também tenha dado uma sensação positiva de transbordamento). Não sei se existe uma solução melhor para buscar o equilíbrio entre diversidade e relevância, mas fica o registro das sensações.


Anotações soltas durante as sessões

Fabricação digital entre hackers, makers e produtores: “revolução industrial” de quem? Organizada por Adrian Smith (Sussex), Johan Soderberg (Göteborg), Maxigas (UOC). 1. Cindy Kohtala, Universidade Aalto. Interessada na rede internacional de Fablabs. Aqueles mais críticos e estratégicos. Pensar sobre os materiais que utilizam. Mobiliário. Compram ou reusam? Fablab Amersfoort (NL) é compromissado com sustentabilidade. Uma das gerentes cria abelhas e formigas. Como a ideologia aparece. Plástico descartado, crítica fácil. Crapjects. Em Maastricht, usam diversos materiais mas coletam o lixo para derreter e reutilizar. Na Noruega tem uma pegada mais comunitária. Sofás, lareira. Alguns são meio Mc Donald’s, padronizados. Outros dialogam com identidade local. São fáceis de entender? Se for fácil demais, vira somente um serviço como Techshop. Como equilibrar a relação? 2. Ginger Coons, Canadá. Pesquisando dressmakers (costureiras que faziam vestidos) do século XIX. Vestidos eram customizados. Usuária profundamente envolvida com a produção do vestido. Ela mesma trazia material, ideias. A peça ia e voltava, para adaptações a fins. Hoje em dia o máximo que existe é customização em massa. Não existe processo de ida e volta entre usuária e produção. E as peças também mudam: a produção industrial lida melhor com unidades mais simples como saias e blusas do que vestidos. 3. Christopher Csikszentmihalyi (M‐ITI, Ilhas Madeira). Trabalho: como pensar em tecnologias que ajudem comunidades a resistir o capitalismo financeiro internacional e as multinacionais. Paródia da capa da Make Magazine. Spark Magazine de março de 71. Engenheiros lendo Marcuse. Committee for Social Responsibility in Engineering. Tecnologia hoje está fora do controle dos engenheiros. Quais as chances de um makerspace? Neil Gershenfeld casou-se com a filha de Tim O’Reilly. Ambos são pessoas interessantes, mas também mestres em transformar inovação a favor da indústria. Recomendações: pensar em aspectos políticos, não somente ideológicos. Organizações políticas locais, representantes de trabalhadorxs, empresas. Produção local de lixo. Mobilidade, educação, cuidados. Modelos de ameaças e mercado financeiro global. Comunicação entre comunidades. Making também como meio de distribuição. Como escalar sem cair nos vícios da divisão internacional de trabalho? 4. Ramon Ribera-Gumaz, Fumaz/UOC. Oficinas de máquinas compartilhadas. Castoriadis: imaginários radicais. Instituir imagens e símbolos de coisas que ainda não existem. Ateneus de Fabricação Digital em Barcelona. Três anos. Temas: urbanismo/inserção no mercado; empreendedorismo; arte e cultura; inclusividade; sustentabilidade. Três programas: pedagógico, inovação social, famílias. Em 2010, ligados à ideia de Smart City em BCN. 2011, governo de direita. Projeto foi criado em 2013. Em maio de 2015, gestão de Ada Colau congelou o projeto. Voltou em julho 2016 como um dos poucos projetos mantidos. Desde 2015, Ateneus focados em “urbanismo de código aberto”. A história dos Ateneus: formados pela classe trabalhadora. Espaços para compartilhar cultura e aprender. Dos digitais, um deles era pra ser “cidade do futuro”. O que surgiu na comunidade foi um banco solidário de alimentos. Crise financeira global, pegando pesado na Espanha. Pessoas não tinham dinheiro pra comprar comida. [Obs minha: isso significa que não conseguiam pensar em futuro? Ou pelo contrário – isso sim é que é o futuro?] Na primeira fase, o projeto não se relacionava com movimentos sociais e comunidades locais. Transformava problemas urbanos em problemas de engenharia, despolitizando o fazer da vida urbana. Tendência de fetichizar a infraestrutura. A mudança foi: “não podemos pensar em cidade inteligente se ela não for justa e democrática”. Repolitizar a fabricação. A política não está fora, mas dentro do making. 5. Kat Braybrooke, Universidade de Sussex. Digital studio no Tate em Londres, Maker Library do British Council. Artigo no Guardian: Hacking apple. Tecnomitos. Jugaad/Shanzhai. Homogenização, determinismo tecnológico, capitalismo neoliberal, invisibilidade do que não está no primeiro mundo.

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Paródia da capa de Make, durante apresentação de Csikszenthmihalyi

Inovação, motor econômico, dirrupção: utopias e críticas sobre making e hacking. 1. Maxigas aponta os hackerspaces como espaços de trabalho digital urbano flexível. Ênfase na flexibilização do trabalho – muitos desempregados formais, ou pessoas usando os hackerspaces como coworking para trabalho precário. Diferente relação com o uso do espaço – usuários podem saber quando o hackerspace está aberto, através de aplicativo ou canal IRC. Uma analogia disso com o relógio-ponto da fábrica. Aliás, a IBM era a maior fabricante de relógios-ponto. Relógio ponto aparecia como elemento ideológico em cartazes do século vinte. Nos hackerspaces são os próprios usuários que controlam o relógio, ao contrário da fábrica. 2, Nadya Peek, do MIT. Máquinas de fabricação historicamente ligadas à precisão e pequeno volume. Os fablabs fizeram proliferar máquinas imprecisas. Fácil pensar na máquina como infra onde roda a aplicação. Mas a máquina é a própria aplicação. Projeto com James Coleman: modular machines that make. Implementaram 125 máquinas no mundo inteiro. Só duas delas eram impressoras 3D. Diversidade de projetos.

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Nadya Peek, do MIT

Subplenária Coletivos. Martin Savransky. Meditar com suas vísceras. Será que as únicas maneiras de relacionar-se com coletivos são dentro, com e ao lado? Será que um estado inteiro pode constituir um coletivo? Produzir graças a e não apesar de divergências. Viveiros fala em descolonização contínua. Escapar não somente dos meios, mas dos meios e dos fins. O que conta e não conta como trabalho?

Subplenária Espaços. Dimitris Papadopoulos. Qual a composição de espaços por outros meios? Imaginamos que percençam à esfera dos comuns? Hipercomum, em vez da separação entre particular, público e comum. Comuns como o lado de fora não existem mais. Conflito entre essas esferas deslocou-se para o centro das dinâmicas da tecnociência. Mesmo com abertura à diversidade, os espaços no atlântico norte são brancos. Associa-se esperança a estes espaços. Alter-ontologias. Projeto de descolonização. Potência distribuída de invenção. Infraestruturas generosas [adorei isso – FF].

Subplenária Futuros. Lucy Suchman. Informe do futuro olhando para trás. Anonymous Barcelona 2040. Guy Fawkes. Isabelle Stengers prova que é possível escapar da oposição entre análise e intervenção. Como podemos fazer as coisas terem importância?

Palestra Isabelle Stengers [saí no meio]. Em algumas décadas, nossos netos vão perguntar “o que você fez naquela época”? Precisamos ter algo para contar. Ter outras narrativas para explicar por que não fizemos nada, se estávamos vendo no que daria. “Estávamos desesperados”. Algumas pessoas falam que já é muito tarde. Vai continuar, não tem game over. Vai piorar, cada vez mais. O que podemos oferecer entre gerações? Como oferecer a imaginação necessária? O futuro é barbárie. Precisamos nos preparar para viver nas ruínas. Já estamos nessa. Precisamos nos recuperar. A gente não passa fome. Mas se desespera. A ruína é o comum. O que precisamos para viver em ruínas e escapar da barbárie? Não gosto do termo “imaginário”. É imaginação. Ativa. Intimidade é generativa. Produzir coisas das quais eles não podem se apropriar.

Movimento maker, Fablabs, Hackerspace e improvisação: Ciência, Tecnologia e Educação por outros meios? 1. Biohack Kolding, na Dinamarca. Cidade sem tradição em ciências bio. Enredando biotech e vida cotidiana: “beber DNA soa estranho, mas fazemos isso sempre”. 2. Lindsay Ems, Butler University: boas questões ao pesquisar tecnologias entre os Amish. Referência: Matt Ratto, Critical Making. Superar problemas específicos com soluções. Lindsay vê inovação como uma ação cotidiana. Entre os Amish, a fé não está separada do dia a dia. Eles também têm mudado. Menos campo, mais artesãos, comerciantes e outros. Profissões masculinas, usualmente. As mulheres começam a trabalhar com turismo. Produzem geleias, etc. Um tiozinho de setenta anos tem um negócio com quarenta funcionários. Ele faz as próprias máquinas, todas pneumáticas. Querem controlar as tecnologias em vez de serem controlados por elas. Aceitam coisas “modernas” que fazem as pessoas ficarem juntas, como churrasqueiras hi-tech. Mas TV, nunca. Os Amish vendem coisas pelo ebay, mas para isso precisam de não-Amish como intermediários. O mesmo acontece para criarem seus websites. 3. Noa Morag, Universidade Bar Ilan, Israel. Acompanhando a cena maker e um fablab na periferia de Tel-Aviv. Estudantes fizeram a Fab Academy, mas no final não se identificavam como makers. Makerspaces de Israel recebendo makers veteranos, mas que não se afiliam ao discurso maker. Sentem os makerspaces como serviço, não comunidade. Makethons são populares em Israel. Uma amiga de Noa disse que durante o makethon era uma maker, no resto do tempo era arquiteta. Eventos desse tipo em Israel têm muita mecatrônica, startups, patrocinadores. Bem masculinas. Opiniões de algumas mulheres participantes: não uso nada digital, mas a fila para usar minha máquina de costura é grande. Outra: não quero fazer nada inútil, quero coisas práticas.

Na última noite da conferência, ainda tivemos a oportunidade de ir até o Hangar, onde acontecia um evento demonstrando algumas iniciativas experimentais ligadas aos universos de atividades da STS, produzidas por participantes.


Como se pode perceber, foi uma avalanche de referências, pessoas e trabalhos a acompanhar. Ainda não consegui ler tudo que coletei durante aqueles dias. Mas já serviu para ter uma noção de que não sou a única pessoa preocupada com a superficialidade da cultura maker. E confesso que me senti em casa durante a conferência. Espero ter recursos para participar das próximas edições.


[1] Minha passagem para Barcelona e a inscrição na conferência STS tiveram o apoio de Luca Maciel e Sarita Albagli, coordenadoras do Liinc, com recursos do CNPq.

Relato TransforMatéria 1 – preparando e saindo

No fim de agosto de 2016, saímos de Ubatuba (eu, Carol e as crianças) para passar mais de dois meses fora do Brasil. Algumas articulações estratégicas, aliadas a felizes sincronicidades, nos possibilitaram concatenar eventos, projetos e outras atividades. Este texto é a introdução para uma série de posts nos quais pretendo contar um pouco do que fizemos por lá, e refletir sobre o que aprendemos.

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A primeira parada seria Barcelona, onde eu participaria, junto com colegas do projeto Ciência Aberta Ubatuba, da conferência internacional de Estudos de Ciência e Tecnologia (STS, na sigla em inglês – o site da conferência parece estar desativado), organizada pela EASST e 4S. Henrique Parra apresentaria por lá um paper sobre o projeto em Ubatuba [1]. Depois, eu seria pesquisador residente no PiNG, em Nantes (França), por quase um mês. Trabalharia em particular com o projeto (s)lowtech junto ao fablab Plateforme C e ao Atelier Partagé (oficina compartilhada) que o PiNG mantém no bairro do Breil. Ainda em Nantes, participaria do festival de economia circular Ceci n’est pas un déchet [2]. Por fim, iríamos a Lüneburg, na Alemanha, onde eu seria fellow do DCRL, ligado à Universidade Leuphana, por cerca de um mês. O tema do semestre do DCRL era “Design and Repair[3]. Apesar de não haver nenhuma relação formal direta desses três contextos, nos meses que antecederam a viagem as coisas foram se encaixando de forma a surgir um eixo relativamente coerente entre eles.

Desde o primeiro semestre de 2016, eu já vinha começando a articular um esforço que tem um pouco de observação, um pouco de organização de rede, um pouco de estratégia de ação. O nome que encontrei para essa busca foi “Transformatórios”. É uma tentativa de interferir na maneira como se estruturam, identificam e atuam as iniciativas experimentais na fronteira entre, para explicar de forma superficial, cultura digital e cultura material. O nome tem alguma relação, ainda que indireta, com o Trasformatorio, encontros organizados por Federico Bonelli na Sicília já há alguns anos. E certamente tem parentesco com o Transformaking, evento realizado na Indonésia no ano retrasado, com participação de alguns colegas de rede Bricolabs como Venzha Christ e Jean-Noel Montagne.

Como já comentei em outro texto, eu acompanhei de alguma distância o surgimento de diversas iniciativas que hoje se identificam com a tal “cultura maker”. E me sinto inconfortável de perceber (e espero estar equivocado) que boa parte do discurso maker vem cada vez mais voltado ao empreendedorismo comercial, e em dar mais fôlego para uma suposta era da indústria. Minha experiência pessoal em contato com algumas pessoas envolvidas sugere que, há uma década, os horizontes eram mais amplos, férteis e conscientes. E menos entediantes. Parte do problema, acredito, está justamente na adoção de um vocabulário que fala muito em fazer/fabricação (make/fabrication) e nem tanto em adaptar, misturar, manter, consertar, ressignificar. Essa escolha acaba condicionando o imaginário, apontando caminhos que se reduzem e se repetem. Daí a proposta de equilibrar de outra forma todos estes modos de ação (do fazer, do manter, do desfazer), e colocar no centro a ideia de transformação de matéria, que me parece ser um elemento comum a todos.

Essa perspectiva está certamente ligada ao caminho que me trouxe até o momento atual: muitos anos trabalhando com projetos de reutilização de tecnologias, inclusão digital, cultura digital experimental, licenças abertas, laboratórios cidadãos. Mas também reflete as conversas que venho tendo mais recentemente com a Carol, que é designer, joalheira e artesã. Talvez pela primeira vez desde que nos conhecemos, nestes últimos anos nossos assuntos de trabalho têm se cruzado. De um lado a vontade de promover uma apropriação crítica das relativamente novas tecnologias de fabricação digital; de outro a busca de uma valorização das muitas camadas de saberes e fazeres ligados à produção artesanal e em pequena escala. E ainda posso acrescentar uma terceira vertente aí, que é a preocupação com a natureza, impacto ambiental, descarte de resíduos e modelos alternativos de desenvolvimento futuro para nossa linda cidade de Ubatuba.

Nessa confluência de assuntos e interesses, e já vendo a possibilidade de fazer essa temporada na Europa, decidimos construir o projeto TransforMatéria. Seria uma maneira de aproveitar as diferentes partes da viagem para começar a vislumbrar o desenvolvimento futuro de uma rede de transformatórios em Ubatuba. Estávamos interessados, como publiquei repetidas vezes antes de partirmos, na aproximação entre a cultura maker digitalizada dos labs; os consertos e adaptações; e o artesanato e produção em pequena escala. Em algum momento da pesquisa, comecei a incluir também uma quarta vertente, que engloba desde a produção agroecológica até a permacultura e outros tipos de atividades que também atuam nesse eixo de transformação de matéria, mas com um enfoque mais explicitamente voltado à sustentabilidade, ao comércio justo e à vida saudável e em harmonia com o planeta.

Como falei acima, tivemos a felicidade de conseguir articular diversos apoios e parcerias que possibilitaram esse período muito marcante em nossas vidas. Além dos já citados apoios do Liinc, PiNG e DCRL (alguns dos quais foram confirmados já no meio do caminho), decidimos fazer também uma experiência de arrecadação coletiva. Tive que trabalhar um pouco para começar a vencer a dificuldade de dialogar com uma câmera (e ainda não consegui superá-la totalmente), e montamos uma campanha de crowdfunding no Catarse. Não tive tempo de me dedicar muito à campanha, e isso foi uma das lições que aprendi: dá trabalho pedir dinheiro. Adaptar a linguagem, insistir, pedir ajuda de compartilhamentos, decidir recompensas e tudo mais. A outra lição é uma ainda não digerida: além de dar trabalho, é muito incômodo pedir dinheiro. Para desconhecidos, porque é difícil explicar a importância do projeto. Para conhecidos, porque existe na nossa cultura um constrangimento em se admitir que não temos tudo resolvido, e precisamos sim de contribuições.

No fim, a campanha deu resultados muito abaixo do que havíamos projetado. Isso não inviabilizou a viagem, justamente porque conseguimos encontrar outros caminhos – não somente com as instituições que garantiram o principal, mas também parentes queridos e amigos – que contribuíram diretamente com o projeto. Mas o que arrecadamos com o crowdfunding ainda possibilitou uma nova etapa que não estava planejada: ao fim do período em Nantes, conseguimos cruzar a França para visitar um amigo. Ele trabalha como carpinteiro em Guédelon, o castelo que está sendo construído hoje com técnicas medievais. Como não poderia deixar de ser, foi mais uma etapa que também se encaixava em nossa intenção de explorar caminhos ligados à transformação da matéria.

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No geral, a viagem foi extremamente fértil. Em ideias, experiências, novas questões. Naturalmente, tivemos desafios, ainda mais em família. A adaptação a diferentes rotinas, idiomas, cultura e dinâmicas sociais, compras e alimentação, transporte e espacialidade, é sempre empolgante mas exige flexibilidade. Mas foi uma experiência única, certamente enriquecedora para cada um de nós quatro. Hoje nos conhecemos melhor, individualmente e em grupo. Esperamos ter a oportunidade de fazer outras dessas.

O próximo post será sobre a conferência de STS em Barcelona. Aguarde…


Notas

[1] Minha ida a Barcelona foi possível com o apoio de Luca e Sarita, coordenadoras do Liinc, com recursos do CNPq.

[2] O deslocamento a Nantes e nossa hospedagem por lá tiveram o apoio da Associação PiNG.

[3] A ida à Alemanha e a hospedagem em Lüneburg tiveram o generoso apoio do DCRL / Universidade Leuphana.

Transformed worlds

Publiquei no medium a versão em inglês da primeira parte do meu relato da residência em Nantes com a Associação PiNG. Chama-se Transformed worlds (e o pessoal de Nantes publicou uma versão em francês no site Slowtech). Nesta primeira parte, eu fiz uma leitura um pouco pessimista sobre revolução industrial, eletrônicos e América Latina. Prometo que na segunda parte, que sai nos próximos dias, tenho algumas sugestões de como escapar a esses impasses.

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